segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022
segunda-feira, 24 de maio de 2021
O CALVÁRIO DE FAFE
«Está
este Calvário em um monte por cima de Fafe seis centos passos e outros tantos
defronte da igreja para Sul. He daqui huã das mais aprazíveis vistas desta
freguesia porque se descobrem quasi todas as povoações e por isso, para o
licito divertimento, he frequentado este sitio dos Cavalheiros e nobres d’esta
terra.» (1)
O “Calvário” de Fafe, lugar sagrado, cuja origem perde-se no tempo, guardião do “Vale das Estevas”, miradouro privilegiado para as serranias, o pequeno promontório é o ponto mais elevado da cidade de Fafe.
Durante muitos séculos,
transeuntes da “estrada real”, que ligava a velha “Vimmaranes” à Vila medieval,
cabeça do clássico concelho de Monte Longo, contemplaram o “Calvário”, onde já
existia um pequeno templo, que no século XVIII era votado ao Senhor do Calvário,
demolido na centúria seguinte. Em 1890 o executivo camarário mandou “despejar”
os habitantes dos prédios do Calvário para ser construído o “passeio público”.
Um jardim exótico de influência brasileira, que foi inaugurado em 26 de
Dezembro de 1892. Albino de Oliveira Guimarães um dos maiores altruístas
“brasileiros” de Fafe foi o grande impulsionador deste jardim romântico. Um dos
mais emblemáticos melhoramentos de uma Vila em pleno desenvolvimento, muito
pela acção filantrópica de fafenses “brasileiros” de torna viagem.
O “passeio público” foi orgulho dos fafenses ao longo de muitas décadas. Foi destino obrigatório, mormente em tardes de domingo; um ponto de encontro para todas as classes sociais.
Em inícios do século XX, o edílico
jardim do Calvário era o recreio de ar livre da Vila; o barco, trazido da Póvoa
de Varzim, não tinha descanso no acanhado lago; no coreto, as bandas de música
animavam o ambiente delicioso, onde casais de namorados trocavam olhares
indiscretos sob a discreta vigilância paternal. Foi um tempo distinto, em que
os fafenses valorizavam e sentiam orgulho nas conquistas públicas, na afirmação
de uma das mais prósperas Vilas da região. O bairrismo estava presente, a velha
“justiça de Fafe” era motivo de vaidade, um cartão-de-visita apreciado por cá e
além-fronteiras.
O centenário Jardim do
Calvário foi, por ventura, local de inspiração para outros empreendimentos numa
terra em expansão, ávida de progresso, legitimamente orgulhosa dos seus filhos
que tanto trabalharam para o seu engrandecimento.
A caminho dos 130 anos de
existência o jardim do Calvário foi alvo de algumas intervenções, que,
infelizmente, foram alterando o exotismo romântico do mais belo espaço para
lazer do centro cívico da cidade.
Falta-lhe a concorrência de outros
tempos, a animação que há muito deveria ter sido incrementada: recriações
epocais, concertos de música, bar, tertúlias, cinema de ar livre e outras
actividades que dinamizariam aquele “oásis” em pleno centro urbano, que deveria
ser valorizado e mais frequentado. Mais importante que as placas comemorativas
de “inaugurações” atemporais seria colocar informação histórica do principal
jardim da cidade, um legado patrimonial que, decorridos 128 anos perdeu a
genuinidade de outrora.
(1 (1) Manuscrito:
“Monografia do concelho de Fafe” pelo pároco de Fafe, João de Sousa Homem,
datado de 4 de Julho de 1736. (Arquivo Distrital de Braga).
segunda-feira, 26 de abril de 2021
O TEATRO-CINEMA DE FAFE
O Teatro-Cinema é um dos principais
motivos de interesse arquitectónico da cidade de Fafe, constituindo, para a
época da sua abertura, um importante marco cultural. Era mesmo considerado pela
imprensa da época “Um dos melhores teatros do norte do País” e o melhor da
província.
A iniciativa de adquirir um velho
teatro existente no local e de o reconstruir deve-se ao ilustre fafense Dr. José
Summavielle Soares, que assim dotou a então vila de Fafe de uma soberba casa de
espectáculos que orgulhava (e ainda hoje orgulha) os fafenses. Concluída a obra
em Dezembro de 1923, a sua inauguração apoteótica ocorreu em 10 de Janeiro
seguinte, com a apresentação da peça “O Grande Amor”, pela companhia de Aura
Abranches.
A sua fachada, de decoração invulgar,
é de harmonioso recorte. Pintada em tom rosa e com desenhos de cúpidos alados,
como que a simbolizar o amor às artes.
A arquitectura do interior é em forma
de ferradura, com um tecto abobadado e decorado com motivos pictóricos alusivos
a músicos famosos (Chopin, Rossini, Haydn e Mozart), além da figuração do
firmamento.
O teatro tem uma lotação aproximada
de 300 lugares, incluindo a plateia, as frisas e os camarotes. Como espaço
lateral, destaca-se o magnifico salão nobre no 1º andar, a toda a largura do
edifício, onde na época áurea da vida social, se realizavam bailes de Carnaval,
manifestações de cultura e recreio e outras reuniões onde se juntava a
sociedade fafense mais ilustre.
As melhores companhias de teatro do
país da primeira metade do século XX por aqui passaram: Aura Abranches no dia
da inauguração, Lucília Simões, Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, Chaby
Pinheiro, Maria Matos, entre outras.
Pouco depois da sua inauguração,
concretamente em Abril de 1924, também já exibia cinema. Naturalmente, mudo. Só
nos anos 30 chegaria o sonoro e em 1955 o Cinemascope.
Ao longo de mais de 50 anos, o
Teatro-Cinema apresentou inúmeros espectáculos de teatro e milhares de filmes,
além de manifestações de diversa índole.
Aquela casa foi ainda sede de
importantes comícios da oposição ao regime salazarista, aquando dos seus
principais momentos, designadamente as campanhas de Norton de Matos (1949) e
Humberto Delgado (1958), e as eleições a que concorria a Oposição Democrática,
em 1969.
Com o andar dos tempos, o edifício
foi-se degradando e deixou de ter condições para a exibição cinematográfica,
pelo que foi encerrado ao público em 1981, por determinação da Direcção Geral
de Espectáculos, por ameaçar ruína.
Encerrado durante 28 anos, a
Câmara Municipal conseguiu finalmente, em 2001, depois de aturadas negociações,
adquirir o imóvel, pelo montante de 2,5 milhões de euros.
Em 2008, foi adjudicada à Casais, S. A. a empreitada de recuperação do imóvel pelo valor de € 4.175.111,89. Todo o conjunto do Teatro-Cinema foi devida e pormenorizadamente restaurado no âmbito das obras de requalificação, bem como dotado das mais modernas condições de funcionamento e de utilização.
Por outro lado, em seu redor foi construído um edifício para apoio técnico às actividades do Teatro-Cinema e que inclui a instalação da Academia de Música José Atalaya.
O novo edifício inclui ainda uma sala polivalente – batizada com o nome de Manuel de Oliveira, em homenagem ao saudoso realizador português, com capacidade para cerca de 150 pessoas. Além da exibição de cinema, nessa sala realizam-se audições musicais e outros eventos.
TEATRO
DE FAFE
«… O Teatro de Fafe era um edifício velho, condenavel,
mas o adorável folho de Fafe sr. dr. José Summavielle Soares, adquiriu-o, fez
dele o teatro mais moderno, mais luxuoso, mais elegante, mais confortável que
em terras de província não existe e que nos grandes meios poucos existirão que
forneçam ao artista e ao publico tantas comodidades. Para isso não se tem
poupado a despesas, dotando o teatro com tudo quanto há de melhor.
A pintura é a mais fina, feita por artistas do Porto. O
mobiliário é luxuoso, artístico, confiado a uma das mais acreditadas casas do
Porto – “A Japonesa, Limitada».
Situado na rua Mgr. Vieira de Castro, em frente à
majestosa habitação do sr. Summavielle, o teatro, para ficar nas condições em
que fica, não podia senão ser adquirido por este senhor, pois que os terrenos laterais
e posterior, para onde cresceu o palco e onde se formaram os camarins,
pertencem ao sobredito senhor.
Adquirindo a velha casa de espectáculos, o grande e
admirável impulsionador de Fafe prestou mais um bom serviço a esta linda e
encantadora terra, pois a dotou com um edifício admirável que muito o honra e
que, se mais coisas não tivesse a perpetuarem-lhe o nome, o novo teatro era o
suficiente para isso.
Ampliado o palco, como dissemos, o teatro sofreu uma
transformação completa. Quem conhecia o velho casario e hoje ali entre,
defronta com um paraíso. Essa modificação excede a espectativa. Duas ordens de
camarotes, frisas, plateia vedada, com um pano de boca moderno, o geral
convidativo – o Teatro de Fafe há-de sobressair com a profusão de luz que vai
ter em noites de gloria como vae ser a da inauguração que nos dizem está para
os primeiros dias de Dezembro.
Ali há higiene, segurança contra incêndios: sim porque o
teatro está reconstruído nas mais modernas condições.
A entrada preserva contra os gelos do inverno.
O salão nobre vae ficar uma coisa surpreendente,
original, ultrapassando o timbre do luxo.
O frontispício está sofrendo uma pintura artística,
adaptável a asa de espectáculos.
Eis o que, em breves palavras, se nos oferece dizer do
Teatro de Fafe.
E, para rematar, vamos antecipando as mais entusiásticas
felicitações ao sr. dr. José Summavielle Soares».
IN: Jornal “O Desforço”, 8 Novembro 1923
segunda-feira, 19 de abril de 2021
MONUMENTO AO BOMBEIRO COMPLETA 30 ANOS
Em 1982, Humberto Gonçalves, na
qualidade de Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de
Fafe e Vereador da Câmara Municipal, apresentou uma proposta para a execução do
monumento como uma “…homenagem justa, devida e merecida aos Bombeiros de
Portugal em geral e aos Bombeiros de Fafe em particular”…, referia a proposta
que só viria a ser aprovada em 22 de Novembro de 1989. No ano seguinte a obra
foi adjudicada por um valor de 8.300 contos.
O monumento, em betão armado, sem
revestimento, apresenta um espelho de água circular com pequenos repuxos; no
centro a representação da Fénix com
cerca de sete metros de altura.
Numa cerimónia muito participada, a
coincidir com a comemoração do primeiro centenário da Corporação local de
Bombeiros, o monumento foi inaugurado em 19 de Abril de 1991.
segunda-feira, 12 de abril de 2021
ORLANDO POMPEU NA PRIMEIRA PESSOA
Orlando Pompeu é um filho da Terra que desde muito cedo mostrou um invulgar dote artístico. Poderia ser Aquitecto, Músico ou Escultor; mas preferiu abraçar as Artes Plásticas. Apoiado pelos pais e professores, o jovem Pompeu estudou Belas Artes em vários países. As suas primeiras obras hiper-realistas abriram-lhe as portas do mundo artístico internacional.
Espanha, França, Inglaterra,
Estados Unidos da América e Japão, acarinharam a arte deste fafense que nunca
perdeu de vista a sua terra natal. Ao fim de trinta e quatro anos de uma
invejável carreira, mestre Pompeu, um dos mais afamados artistas fafenses além
fronteiras, regressou com o seu tesouro artístico que partilhou com os
fafenses numa Mega-Exposição realizada no final do ano de 2012.
Orlando Pompeu é um moderno
emigrante de torna viagem, bem sucedido, que ama a sua Terra e, como os seus
antepassados, quer deixar a sua marca em Fafe.
O artista nasceu na freguesia de Cepães em 24 de Maio de 1956, filho de negociante em mercearia e bebidas. Pompeu acredita que o seu dote para a pintura vem-lhe do berço e lembra com muito carinho o incentivo dos pais e professores para seguir estudos na vertente das Artes. “Desde muito novo queria ser artista; arquitecto, músico, escultor… acabei por enveredar pelas Artes Plásticas, o que me dá imenso prazer. Com catorze ou quinze anos supervisionava os desenhos dos meus colegas de escola que recordo com muita afeição, lamentando que muitos deles não tivessem a minha sorte”.
Primeiro no Porto, depois em
Barcelona, Pompeu estudou e pintou, começando a manifestar a sua forte aptidão
para a arte pictórica.
Em 1978 realizou a sua
primeira exposição individual em Fafe, apresentando telas hiper-realistas muito
apreciadas, que lhe abriram as portas de Paris onde trabalhou e expôs em
diversas ocasiões. A mostra no Centro Português da Fundação Calouste
Gulbenkian, em 1987, foi a sua rampa de lançamento para uma carreira artística
que o levaria até aos Estados Unidos da América e ao Japão, onde mantém
galeristas. O contacto com outras culturas e realidades artísticas estiveram na
origem da sua evolução pictórica. “Se continua-se a fazer telas
hiper-realistas, que aliás me davam muito dinheiro, teria cristalizado. As
pinturas gestuais e concepcionais deram-me um cunho pessoal apreciado um pouco
por todo o mundo.”
Mestre Pompeu afirma nunca
ter pintado por encomenda, “nunca o fiz e jamais o farei, tive já várias
propostas nesse sentido, mas quando me pedem para pintar esta ou aquela cor,
este ou aquele motivo, perco logo a vontade de o fazer”. O artista gosta de
conceber obras originais, criadas pela sua imaginação, muitas vezes inspiradas
na sua aldeia. Exterioriza os seus sentimentos na tela, criando “uma espécie de
monólogo”, reflectindo estados de espírito e “aconselhamentos da natureza”.
Referiu ter algumas influências: Da Vinci, Dali, Nadir Afonso, Júlio Resende e
Cargaleiro, foram os citados.
Em 1998 o Município de Fafe,
reconhecendo a sua celebridade, agraciou o artista com a Medalha de Ouro de
Mérito Concelhio. Um galardão que orgulha o pintor, que em momento algum perdeu
de vista a sua terra natal. “A minha aldeia de Cepães é o meu refúgio, é lá que
resido e espero ficar até o fim dos meus dias”, confessou.
Orlando Pompeu é um ser humano amigo e
solidário, muito preocupado com o destino de Portugal na actual conjuntura
politica, económica e social. As suas recentes obras de sátira política são
disso reflexo. “Os artistas não podem ser insensíveis à dor e ao sofrimento
humano”, exclamou o mestre que, confessou não gostar muito de ler jornais e ver
televisão.
Considera-se um homem rico,
pela família e lar que conseguiu formar e mantém com muito amor. No aspecto
económico afirma ser um remediado que vive confortavelmente.
“O
Centro Cultural Orlando Pompeu foi uma ideia minha que, no imediato, está posta
de parte, pelos custos elevados e por saber que Fafe tem outras prioridades”.
O sonho de Orlando Pompeu é
ver a sua obra depositada em Fafe. Há uns anos surgiu uma proposta que implicava
a atribuição de um subsídio vitalício de 2.000 Euros mensais que o Município
pagaria até à morte do casal. Foram muitas as vozes contraditórias e o negócio
não foi concretizado. Orlando Pompeu afirma que estão em causa 300 pinturas
sobre tela e mais de 5.000 desenhos, “são os meus filhos pictóricos que
representam mais de três décadas de intensa produção artística que quero
guardar para a minha cidade. Já tive propostas de compra de algumas dessas
obras de um senhor endinheirado do Dobai, exportador de petróleo, mas o
dinheiro não é o mais importante e quero que esses quadros fiquem na terra
mãe”, confessou o pintor.
Confrontado com o “boato”
que já estaria a receber dinheiro da Câmara Municipal, Pompeu desmentiu
categoricamente; nem um euro! Exclamou. “O que é verdadeiramente importante é o
Município de Fafe adquirir a minha obra, o resto é o mais fácil, porque
certamente não iremos viver para sempre neste marasmo cultural, politico,
social e económico. Eu prefiro vender a minha obra por um sexto do seu valor à
minha cidade a vê-la partir para o Dubai ou para qualquer outro lugar pelo seu
real valor comercial”.
O executivo Camarário, pela
voz do seu Presidente, José Ribeiro, admitiu estar a estudar uma outra forma
que viabilize a manutenção da obra de Orlando Pompeu em Fafe. “O Pompeu é de
Fafe e a sua obra tem de ficar em Fafe”, afirmou o líder autárquico na
inauguração da Mega Exposição patente ao público, considerando-a o regresso do
reconhecido artista fafense às suas origens. “Estamos a puxá-lo para Fafe”,
afirmou na mesma altura José Ribeiro.
“Sou
um pouco excêntrico e não importo nada de ser comparado com o genial Einstein”
Orlando Pompeu é um homem
afável, sensível, generoso, pacifista, solidário, bom conversador, culto, que
gosta de reencontrar amigos e conhecidos de infância pelas ruas do seu torrão
natal. Confessa que não gosta de velocidade, até porque, quando conduz, gosta
de apreciar a natureza, as paisagens e os pormenores que também são fonte de
inspiração para os seus trabalhos. Considera-se algo excêntrico, detesta a
vulgaridade e não se importa nada de ser comparado com a figura de Einstein.
Teve formação católica mas há muito deixou de frequentar missas. Tem, um enorme
fascínio pela mãe natureza, abraça a vida com optimismo e talvez por isso tenha
receio ao sofrimento e à morte. Idolatra a sua família: a companheira que chama
“mamã” e os seus dois filhos. Não é um homem de vícios mundanos, tenta uma
maior longevidade cuidando da sua saúde física e mental. É sociável mas tem
necessidade de se isolar para concentrar-se nos seus projectos artísticos que
classifica de “originais e genuínos”.
“A
cultura em Fafe está no bom caminho mas há hábitos que devem ser criados”
Pompeu considerou que a
cultura em Fafe é diversificada e existe muita oferta de espectáculos,
exposições e outras manifestações artísticas com relevância. Contudo, “apesar
do esforço da autarquia, Fafe tem ainda muitas carências ao nível da
sensibilidade, da ética, da formação e da educação. No país vizinho, por
exemplo, assistimos a longas filas de espera para assistir a um evento
cultural”. Na opinião do mestre Pompeu isto acontece pelo facto de pais e
professores criarem hábitos culturais nos mais novos. Citando Froid, disse que
“a criança é pai do homem”. Se não incutirmos boas práticas nos mais jovens
será mais difícil, no futuro, garantir público nas realizações culturais,
defendeu Orlando Pompeu que está muito satisfeito em poder realizar a sua maior
exposição individual de sempre na Terra que o viu nascer, ambiciona ver criadas
condições favoráveis que permitam ao Município de Fafe adquirir o seu espólio
pictórico de trinta anos de frutuosa carrreira.
Jesus Martinho
segunda-feira, 5 de abril de 2021
A PROPÓSITO DA ICONOLOGIA DA JUSTIÇA DE FAFE
| Reprodução do jornal "O Desforço" 7 Novembro 1907 |
segunda-feira, 29 de março de 2021
CAFÉ AVENIDA COMPLETOU 112 ANOS
segunda-feira, 22 de março de 2021
O desaparecido Snack-Bar Dom Fafe
Numa época de franco progresso, com a vila a mostrar-se mais movimentada, mesmo fora das “quartas” de Feira, com muita gente a circular pelo centro da urbe, José Maria Moura Dias Azevedo, José Leite da Silva e Carlos Moura Dias Azevedo, em Sociedade, lançaram o Snack-Bar “Dom Fafe”, localizado “num dos pontos mais centrais da vila, na Praça Oliveira Salazar (actual Praça 25 de Abril).
«Com Café, Sala de Chá e Restaurante, apresenta uma decoração
original e música permanente.
As pinturas das paredes, electricidade e decorações,
estiveram a cargo de Professores da Escola Técnica de Fafe. O mobiliário é da
Casa Alexandre Leite da Silva & C., Lda. da cidade do Porto.
Tem serviço permanente de almoços, jantares e lanches.»
O novo estabelecimento foi inaugurado na tarde do dia 15 de
Outubro de 1966, com a presença de Alberto de Meireles Campos e Dr. Artur Antunes
Aguiar, respectivamente, Presidente e Vice-presidente da Câmara Municipal,
Padre Joaquim Leite Araújo; Eng. Mário Valente; Augusto Francisco Soares de
Carvalho e António José Rodrigues de Carvalho, decoradores do Snack-Bar; Eng.
João da Conceição Azevedo, responsável pela parte elétrica; outros convidados e
imprensa.
Após um “copo d’água”, o pároco Leite Araújo e o Presidente
da Câmara Municipal fizeram o elogio à nova casa e aos seus empreendedores.
Com uma longevidade de 47 anos, o “Dom fafe” foi um dos mais
emblemáticos “Cafés” da antiga vila e da cidade. Fechou as suas portas em
finais de 2013, dando lugar a uma pastelaria.
segunda-feira, 15 de março de 2021
História ferroviária fafense começou há 150 anos
CAMINHO DE FERRO “AMERICANO” PODIA TER CHEGADO A FAFE NO
SÉCULO XIX
A origem do troço ferroviário Trofa a Fafe prende-se a uma
concessão feita ao italiano Simão Gattai. Em 11 de Julho de 1871, visando a construção
de um caminho-de-ferro “americano”, sobre estrada, ligando o Porto a Braga, com
passagem por Santo Tirso e Guimarães.
Em 28 de Dezembro de 1872, o governo alterou as condições da
concessão, obrigando ligar o caminho férreo proposto à linha do Minho, por
Vizela e Fafe.
«Tendo o governo concedido licença a Simão Gattai, por
decreto de 11 de Julho de 1871, para estabelecer um caminho de ferro americano
(rail road) entre o Porto e Braga, por Santo Thyrso e Guimarães, sobre as
estradas reais nºs 32 e 27;
Pedindo o mesmo Simão Gattai auctorização para empregar
locomotivas na exploração do dito caminho; e não podendo esta autorização ser
concedida sem que o emprezario se obrigasse a construir o caminho em leito
próprio, alterado o traçado e modificadas as clausulas e condições da primitiva
licença;
Vista a acceitação de Simão Gattai: Hei por bem modificar e
alterar as disposições do decreto de 11 de Julho de 1871, nos termos dos
artigos seguintes:
I O concessionario Simão Gattai efectuará á sua custa:
1º Os estudos e a construção de um caminho de ferro de via
reduzida com todas as suas dependencias entre um ponto do caminho de ferro do
Minho, proximo ao rio Ave e as Taipas, com um ramal de Fafe por Vizella, a
entroncar na linha principal entre Santo Thyrso e Guimarães. » (…)
O ministro e secretário d’estado dos negocios das obras
publicas commercio e industria assim o tenha entendido e faça executar.
Paço, em 28 de Dezembro de 1872. = Rei. = António Cardoso
Avelino.
Diário do Governo nº 4, de 7 de Janeiro de 1873
In: http://legislacaoregia.parlamento.pt/Info/about.aspx
Em 1874, por falência de Simão Gattai, a concessão foi
trespassada à companhia inglesa “Minho District Railway Company, Limited” e,
por despacho de 18 de Fevereiro do referido ano, foi dispensada a construção do
ramal de Fafe.
Desta forma, foi gorada a intenção de fazer chegar, à vila de
Fafe, um caminho-de-ferro, por tracção animal, transporte este que viria a ficar
obsoleto em inícios do século XX.
A “Sala de Visitas do Minho” ficou mais de três décadas à
espera do seu caminho-de-ferro; do tão ambicionado melhoramento, que só
chegaria em 1907.
Manteve-se o transporte a cavalo e os “trens” de tracção
animal, fora de trilhos de ferro, por caminhos tortuosos de pouca “realeza”…
O “americano”, afinal, não chegou a Fafe…
segunda-feira, 8 de março de 2021
O TESOURO DE ARNOZELA
Em 1903, a antiga freguesia de Arnozela revelou um dos mais
importantes tesouros da arqueologia conhecidos em Portugal.
Fortuitamente, foi achado um conjunto de joalharia composto
por 19 braceletes e uma argola, em ouro, trabalhado durante a Idade do Bronze
(médio), cerca de 1.500 a.C.
Actualmente, este espólio, integra a exposição permanente, “Tesouros
da Arqueologia Portuguesa”, no Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa.
Ricardo Severo (1869-1940), engenheiro, arqueólogo e político
foi o primeiro especialista a estudar este “tesouro” então na posse dos
negociantes portuenses, Borges & Irmão, que não chegaram a efectivar a
compra dos braceletes aos achadores.
Os «20 aros de formas e dimensões diversas, com um peso
aproximado de 533 gr., que se encontravam originalmente encadeados e/ou
suspensos de um outro» foram adquiridos pelo Museu Etnológico de Lisboa pelo
valor de 600.000 réis. Era, assim, evitada uma gananciosa fundição e resgatado,
para a ciência, um importante espólio arqueológico cronologicamente enquadrável
entre os finais do 2º milénio a.C. e o início do 1º milénio a.C.
«… O Dr. Eduardo de Freitas, cuidadoso investigador d’esta região, informa-nos sobre o local onde se encontrou o molho dos braceletes: foi, de facto, em Arnozella, n’um pequeno valle da vertente norte da serra de Penouta, onde o acharam uns pedreiros, quando excavavam junto a um penedo, a dois palmos de profundidade. (…) No sitio não há tradição nem vestígios de antiga povoação, nem tão pouco junto ao penedo encontrou o nosso informador outros indícios, o que o faz justamente suppôr que se trata de thesouro escondido a que o próprio penedo servia de marco de referencia.»
In: SEVERO, Ricardo (1905b) – «Vária. Notas e Comunicações. Os Braceletes d'Ouro de Arnozela». Portugália materiais para o estudo do povo português, 2 (1); p. 62-71
Actualmente, o “Tesouro de Arnozela”, um eminente espólio da
joalharia dos finais pré-historia peninsular, encontra-se exposto no Museu
Nacional de Arqueologia, em Lisboa, na sala “Tesouros da Arqueologia Nacional”.
Fica o breve apontamento de mais um importante património
móvel fafense que, fatalmente, acabou por sair de Fafe…
Links para consulta:
http://www.museunacionalarqueologia.gov.pt/?p=4161
http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=110040
segunda-feira, 1 de março de 2021
Antiga casa de José Florêncio Soares um caso gritante de abandono
Outrora palácio faustoso,
uma das mais importantes e antigas casas de “brasileiro” de torna-viagem da
vila dos finais do século XIX, desapossado do seu recheio, chegou aos nossos
dias em inquietante estado de conservação. Um caso gritante de abandono. Uma vergonha
para uma cidade que “quer ser a terra mais brasileira do país”.
O nosso Teatro-Cinema é um
dos mais importantes e emblemáticos edifícios históricos da cidade.
Exemplarmente recuperado em 2008, aquela bela sala de espectáculos foi
devolvida aos fafenses no dia 25 de Abril de 2009.
Frente à exuberante fachada
do Teatro existe um outro imóvel histórico, uma casa construída pelo influente
“brasileiro” de torna viagem, José Florêncio Soares, em finais do século XIX.
Este magnífico palácio,
datado de 1861, foi, durante mais de centúria e meia, residência de uma
abastada família fafense.
Nos anos 80 do século
passado o edifício foi abandonado e, na actualidade, encontra-se bastante
degradado.
Pouco antes da reabertura do
Teatro-Cinema, o Município mandou colocar uma tela na fachada do imóvel
fronteiro para esconder o seu mísero estado de conservação. A referida tela
apodreceu e acabou por cair, desmascarando o triste cenário de uma das mais
antigas e simbólicas casas “brasileiras” de Fafe, em preocupante estado de
conservação.
O nosso Teatro-Cinema, desde
a sua reabertura, recebeu milhares de pessoas: Audiências de espectáculos e os
mais variados eventos.
“O teatro é tão bonito! É
uma pena aquela antiga casa estar naquele estado!" Ouvi da voz de um forasteiro,
oriundo de Lisboa.
Mais que ter “pena”, urge
tomar uma atitude, desenvolver esforços para salvar aquele Património
Arquitectónico agonizante.
Sabemos que a crise económica comprometeu o futuro imediato deste país, contudo, Fafe não pode continuar a perder os seus valores históricos, testemunhos importantes da herança de fafenses que outrora partiram, criando riqueza e regressaram, contribuindo indubitavelmente para o desenvolvimento desta terra.
Fafe tem obrigação de
respeitar a memória colectiva dos “brasileiros” de torna-viagem e, a melhor
forma de o fazer é conservar e valorizar o seu invulgar património
arquitectónico e espólios relacionados.
Se não forem tomadas medidas
urgentes e eficazes de protecção, dentro de poucos anos, Fafe perderá, irremediavelmente,
o estatuto de “cidade mais brasileira de Portugal”!
O historiador Miguel
Monteiro, no seu livro “Fafe dos “brasileiros” (1860 – 1930), Perspectiva
Histórica e Patrimonial, 2004 (2ª edição), faz uma descrição bem elucidativa da
importância histórica deste imóvel:
«José Florêncio Soares, natural de Fafe, nasceu em 4 de Março de 1824 e faleceu em 1 de Abril de 1900. Casou no Brasil com D. Maria Teresa da Costa, natural do Rio de Janeiro, filha de Domingos José da Costa, natural de Oliveira de Azeméis, e D. Senhorinha Jesuína da Silva, natural de Minas Gerais, estado de Minas Cerais, Brasil.
José Florêncio emigrou, em
20/10/1837, para o Brasil com 13 anos de idade.
Foi um dos emigrantes mais
bem sucedidos no Brasil, revelando a sua obra perspicácia, espírito cívico e
filantrópico invulgar. Antes dos 40 anos constrói esta majestosa casa (1861),
participa activamente na fundação da Fábrica do Bugio, da qual veio a ser o
único proprietário.
Aparece a liderar o grupo de
«brasileiros» promotores da construção do Hospital da Misericórdia de Fafe,
cópia de outra casa de caridade do Rio de Janeiro, a pedido de seu pai, médico,
angariando donativos para a sua construção junto da comunidade de «brasileiros»
de Fafe. A iniciativa teve êxito bastante para que rapidamente se desse inicio
à construção da benemérita obra, expoente da filantropia dos «torna-viagem» de
Fafe. Em 21/3/1863 fez-se a abertura da primeira enfermaria com nove camas e,
desse facto, o jornal O Comércio do Porto, dizia em 21/3/1863.
Retrato de José Florêncio Soares, primeiro proprietário da casa.
(Reprodução do "Almanach Illustrado de Fafe, 1910)
“Abre-se quinta-feira em
Fafe a parte do Hospital que se acha feita
e com capacidade para
receber nove doentes. Este estabelecimento de caridade deve-se aos esforços de
alguns cavalheiros de Fafe e muito particularmente ao Sr. José Florêncio, que
tem sido incansável em promover os meios para levar a efeito um tão útil como
humanitário estabelecimento.
[…] Na quinta-feira à noite
dá o Sr. Florêncio, distinto Cavalheiro de Fafe, um esplêndido baile. Fazem-se
grandes preparativos para esta função, que promete ser sumptuosa. A Casa do Sr.
Florêncio é das mais lindas de Fafe e o salão de baile é magnífico».
Como presidente da câmara
liderou as principais obras dos finais do século XIX, das quais se destaca
ainda o Jardim Público. Do entusiasmo com que se dedicou à causa ficaram belos
registos na imprensa local, tendo sido tão polémica a sua relação com as forças
vivas do concelho, que decidiu mandar esculpir em gesso e de tamanho natural
três dos seus opositores, colocando-os na casa de banho da sua casa com os
seguintes dizeres: «EMBARGARAM OS MUROS, EMBARGARAM OS PÓRTICOS, EMBARGARAM A
CASA, EMBARGARAM TUDO»
Sabemos que um destes seus
opositores foi Mons. João Monteiro Vieira de Castro e que o facto gerou tal
curiosidade na vila que muitas foram as visitas às esculturas. De facto, este
aposento terá sido o mais visitado, chegando tal curiosidade até ao século XX.
Distinguiu-se como o principal
benfeitor da construção da Igreja Nova de São José, interrompida após a sua
morte por muitos anos.
Do seu perfil e carácter
ficou testemunho no epitáfio, que mandou gravar: «AQUI JAZ JOSÉ FLORÊNCIO
SOARES QUE SEMPRE AMOU A VIDA E O TRABALHO».
Esta casa, verdadeiro
palácio, mantêm-se quase sem alterações, com um riquíssimo mobiliário da época,
onde existia uma harpa e um piano para animar recepções.
[…] Neste verdadeiro palácio
de rés-do-chão e andar, telhado de quatro águas, salientam-se as grossas
paredes de pedra e as esquinas, soleiras e ombreiras, de cantaria. Verdadeiro
palácio ou solar urbano, nele ressalta a pompa das janelas e sacadas. Do átrio,
em pedra lavrada, sai a escadaria em madeira exótica, que se desdobra em dois
lanços, ocupando o centro do edifício. No rés-do-chão situam-se os escritórios
e dependências de serviço e no andar, sobre a frente, um majestoso salão para
recepções. O edifício é rebocado a branco, destacando-se no interior as
madeiras preciosas, os estuques e os delicados móveis e porcelanas».
Foi assim que Miguel
Monteiro viu o palácio de José Florêncio Soares, há cerca de três décadas… E
agora?!
































