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segunda-feira, 24 de maio de 2021

O CALVÁRIO DE FAFE


Vista do centro da vila de antanho antes da construção do Jardim/Passeio Público
c. 1890


«Está este Calvário em um monte por cima de Fafe seis centos passos e outros tantos defronte da igreja para Sul. He daqui huã das mais aprazíveis vistas desta freguesia porque se descobrem quasi todas as povoações e por isso, para o licito divertimento, he frequentado este sitio dos Cavalheiros e nobres d’esta terra.» (1)

 

O “Calvário” de Fafe, lugar sagrado, cuja origem perde-se no tempo, guardião do “Vale das Estevas”, miradouro privilegiado para as serranias, o pequeno promontório é o ponto mais elevado da cidade de Fafe.

Durante muitos séculos, transeuntes da “estrada real”, que ligava a velha “Vimmaranes” à Vila medieval, cabeça do clássico concelho de Monte Longo, contemplaram o “Calvário”, onde já existia um pequeno templo, que no século XVIII era votado ao Senhor do Calvário, demolido na centúria seguinte. Em 1890 o executivo camarário mandou “despejar” os habitantes dos prédios do Calvário para ser construído o “passeio público”. Um jardim exótico de influência brasileira, que foi inaugurado em 26 de Dezembro de 1892. Albino de Oliveira Guimarães um dos maiores altruístas “brasileiros” de Fafe foi o grande impulsionador deste jardim romântico. Um dos mais emblemáticos melhoramentos de uma Vila em pleno desenvolvimento, muito pela acção filantrópica de fafenses “brasileiros” de torna viagem.



Frontispício do jardim no limiar do séc. XX 


O “passeio público” foi orgulho dos fafenses ao longo de muitas décadas. Foi destino obrigatório, mormente em tardes de domingo; um ponto de encontro para todas as classes sociais.

Em inícios do século XX, o edílico jardim do Calvário era o recreio de ar livre da Vila; o barco, trazido da Póvoa de Varzim, não tinha descanso no acanhado lago; no coreto, as bandas de música animavam o ambiente delicioso, onde casais de namorados trocavam olhares indiscretos sob a discreta vigilância paternal. Foi um tempo distinto, em que os fafenses valorizavam e sentiam orgulho nas conquistas públicas, na afirmação de uma das mais prósperas Vilas da região. O bairrismo estava presente, a velha “justiça de Fafe” era motivo de vaidade, um cartão-de-visita apreciado por cá e além-fronteiras.

O centenário Jardim do Calvário foi, por ventura, local de inspiração para outros empreendimentos numa terra em expansão, ávida de progresso, legitimamente orgulhosa dos seus filhos que tanto trabalharam para o seu engrandecimento.

A caminho dos 130 anos de existência o jardim do Calvário foi alvo de algumas intervenções, que, infelizmente, foram alterando o exotismo romântico do mais belo espaço para lazer do centro cívico da cidade.

Falta-lhe a concorrência de outros tempos, a animação que há muito deveria ter sido incrementada: recriações epocais, concertos de música, bar, tertúlias, cinema de ar livre e outras actividades que dinamizariam aquele “oásis” em pleno centro urbano, que deveria ser valorizado e mais frequentado. Mais importante que as placas comemorativas de “inaugurações” atemporais seria colocar informação histórica do principal jardim da cidade, um legado patrimonial que, decorridos 128 anos perdeu a genuinidade de outrora.

(1 (1)   Manuscrito: “Monografia do concelho de Fafe” pelo pároco de Fafe, João de Sousa Homem, datado de 4 de Julho de 1736. (Arquivo Distrital de Braga).




Vista do Jardim nos anos de 1900



Frontaria principal do Jardim do Calvário 
Arquivo 2016



Vista do interior do Jardim do Calvário
Arquivo 2016










   

 


 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O TEATRO-CINEMA DE FAFE


A propósito do 12º aniversário da reabertura.

O Teatro-Cinema é um dos principais motivos de interesse arquitectónico da cidade de Fafe, constituindo, para a época da sua abertura, um importante marco cultural. Era mesmo considerado pela imprensa da época “Um dos melhores teatros do norte do País” e o melhor da província.

A iniciativa de adquirir um velho teatro existente no local e de o reconstruir deve-se ao ilustre fafense Dr. José Summavielle Soares, que assim dotou a então vila de Fafe de uma soberba casa de espectáculos que orgulhava (e ainda hoje orgulha) os fafenses. Concluída a obra em Dezembro de 1923, a sua inauguração apoteótica ocorreu em 10 de Janeiro seguinte, com a apresentação da peça “O Grande Amor”, pela companhia de Aura Abranches.

A sua fachada, de decoração invulgar, é de harmonioso recorte. Pintada em tom rosa e com desenhos de cúpidos alados, como que a simbolizar o amor às artes.

A arquitectura do interior é em forma de ferradura, com um tecto abobadado e decorado com motivos pictóricos alusivos a músicos famosos (Chopin, Rossini, Haydn e Mozart), além da figuração do firmamento.

O teatro tem uma lotação aproximada de 300 lugares, incluindo a plateia, as frisas e os camarotes. Como espaço lateral, destaca-se o magnifico salão nobre no 1º andar, a toda a largura do edifício, onde na época áurea da vida social, se realizavam bailes de Carnaval, manifestações de cultura e recreio e outras reuniões onde se juntava a sociedade fafense mais ilustre.

As melhores companhias de teatro do país da primeira metade do século XX por aqui passaram: Aura Abranches no dia da inauguração, Lucília Simões, Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, Chaby Pinheiro, Maria Matos, entre outras.

Pouco depois da sua inauguração, concretamente em Abril de 1924, também já exibia cinema. Naturalmente, mudo. Só nos anos 30 chegaria o sonoro e em 1955 o Cinemascope.

Ao longo de mais de 50 anos, o Teatro-Cinema apresentou inúmeros espectáculos de teatro e milhares de filmes, além de manifestações de diversa índole.

Aquela casa foi ainda sede de importantes comícios da oposição ao regime salazarista, aquando dos seus principais momentos, designadamente as campanhas de Norton de Matos (1949) e Humberto Delgado (1958), e as eleições a que concorria a Oposição Democrática, em 1969.

 

 


 

Com o andar dos tempos, o edifício foi-se degradando e deixou de ter condições para a exibição cinematográfica, pelo que foi encerrado ao público em 1981, por determinação da Direcção Geral de Espectáculos, por ameaçar ruína.

Encerrado durante 28 anos, a Câmara Municipal conseguiu finalmente, em 2001, depois de aturadas negociações, adquirir o imóvel, pelo montante de 2,5 milhões de euros.

Em 2008, foi adjudicada à Casais, S. A. a empreitada de recuperação do imóvel pelo valor de € 4.175.111,89. Todo o conjunto do Teatro-Cinema foi devida e pormenorizadamente restaurado no âmbito das obras de requalificação, bem como dotado das mais modernas condições de funcionamento e de utilização.

Por outro lado, em seu redor foi construído um edifício para apoio técnico às actividades do Teatro-Cinema e que inclui a instalação da Academia de Música José Atalaya.

O novo edifício inclui ainda uma sala polivalente – batizada com o nome de Manuel de Oliveira, em homenagem ao saudoso realizador português, com capacidade para cerca de 150 pessoas. Além da exibição de cinema, nessa sala realizam-se audições musicais e outros eventos.

 


 

 

TEATRO DE FAFE

 

«… O Teatro de Fafe era um edifício velho, condenavel, mas o adorável folho de Fafe sr. dr. José Summavielle Soares, adquiriu-o, fez dele o teatro mais moderno, mais luxuoso, mais elegante, mais confortável que em terras de província não existe e que nos grandes meios poucos existirão que forneçam ao artista e ao publico tantas comodidades. Para isso não se tem poupado a despesas, dotando o teatro com tudo quanto há de melhor.

A pintura é a mais fina, feita por artistas do Porto. O mobiliário é luxuoso, artístico, confiado a uma das mais acreditadas casas do Porto – “A Japonesa, Limitada».

Situado na rua Mgr. Vieira de Castro, em frente à majestosa habitação do sr. Summavielle, o teatro, para ficar nas condições em que fica, não podia senão ser adquirido por este senhor, pois que os terrenos laterais e posterior, para onde cresceu o palco e onde se formaram os camarins, pertencem ao sobredito senhor.

Adquirindo a velha casa de espectáculos, o grande e admirável impulsionador de Fafe prestou mais um bom serviço a esta linda e encantadora terra, pois a dotou com um edifício admirável que muito o honra e que, se mais coisas não tivesse a perpetuarem-lhe o nome, o novo teatro era o suficiente para isso.

Ampliado o palco, como dissemos, o teatro sofreu uma transformação completa. Quem conhecia o velho casario e hoje ali entre, defronta com um paraíso. Essa modificação excede a espectativa. Duas ordens de camarotes, frisas, plateia vedada, com um pano de boca moderno, o geral convidativo – o Teatro de Fafe há-de sobressair com a profusão de luz que vai ter em noites de gloria como vae ser a da inauguração que nos dizem está para os primeiros dias de Dezembro.

Ali há higiene, segurança contra incêndios: sim porque o teatro está reconstruído nas mais modernas condições.

A entrada preserva contra os gelos do inverno.

O salão nobre vae ficar uma coisa surpreendente, original, ultrapassando o timbre do luxo.

O frontispício está sofrendo uma pintura artística, adaptável a asa de espectáculos.

Eis o que, em breves palavras, se nos oferece dizer do Teatro de Fafe.

E, para rematar, vamos antecipando as mais entusiásticas felicitações ao sr. dr. José Summavielle Soares».

 

IN: Jornal “O Desforço”, 8 Novembro 1923
















 

 

 

 

 


 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

MONUMENTO AO BOMBEIRO COMPLETA 30 ANOS


 Este monumento, que representa a Fénix renascida, símbolo maior dos bombeiros portugueses, foi desenhado por António Manuel Santos Santana, artista natural do Porto, fafense por adopção, autor de importantes trabalhos com destaque para o próprio projecto do quartel dos bombeiros locais. O monumento localiza-se na rotunda do extremo Sul da Av. Do Brasil.

Em 1982, Humberto Gonçalves, na qualidade de Presidente da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Fafe e Vereador da Câmara Municipal, apresentou uma proposta para a execução do monumento como uma “…homenagem justa, devida e merecida aos Bombeiros de Portugal em geral e aos Bombeiros de Fafe em particular”…, referia a proposta que só viria a ser aprovada em 22 de Novembro de 1989. No ano seguinte a obra foi adjudicada por um valor de 8.300 contos.

O monumento, em betão armado, sem revestimento, apresenta um espelho de água circular com pequenos repuxos; no centro  a representação da Fénix com cerca de sete metros de altura.

Numa cerimónia muito participada, a coincidir com a comemoração do primeiro centenário da Corporação local de Bombeiros, o monumento foi inaugurado em 19 de Abril de 1991.


Reprodução de postal dos anos 90 do séc. XX

segunda-feira, 12 de abril de 2021

ORLANDO POMPEU NA PRIMEIRA PESSOA


Orlando Pompeu
Foto de Rui Dario Correia (2012)


Por ser um assunto da actualidade cultural fafense, resgato uma peça sobre Orlando Pompeu, fruto de uma entrevista que tive o prazer de realizar para o semanário "Notícias de Fafe", em Novembro de 2012.

“O Centro Cultural Orlando Pompeu foi uma ideia minha que, no imediato, está posta de parte, pelos custos elevados e por saber que Fafe tem outras prioridades,” disse Orlando Pompeu.


Orlando Pompeu é um filho da Terra que desde muito cedo mostrou um invulgar dote artístico. Poderia ser Aquitecto, Músico ou Escultor; mas preferiu abraçar as Artes Plásticas. Apoiado pelos pais e professores, o jovem Pompeu estudou Belas Artes em vários países. As suas primeiras obras hiper-realistas abriram-lhe as portas do mundo artístico internacional.

Espanha, França, Inglaterra, Estados Unidos da América e Japão, acarinharam a arte deste fafense que nunca perdeu de vista a sua terra natal. Ao fim de trinta e quatro anos de uma invejável carreira, mestre Pompeu, um dos mais afamados artistas fafenses além fronteiras, regressou com o seu tesouro artístico que  partilhou com os fafenses numa Mega-Exposição realizada no final do ano de 2012.

Orlando Pompeu é um moderno emigrante de torna viagem, bem sucedido, que ama a sua Terra e, como os seus antepassados, quer deixar a sua marca em Fafe.

O artista nasceu na freguesia de Cepães em 24 de Maio de 1956, filho de negociante em mercearia e bebidas. Pompeu acredita que o seu dote para a pintura vem-lhe do berço e lembra com muito carinho o incentivo dos pais e professores para seguir estudos na vertente das Artes. “Desde muito novo queria ser artista; arquitecto, músico, escultor… acabei por enveredar pelas Artes Plásticas, o que me dá imenso prazer. Com catorze ou quinze anos supervisionava os desenhos dos meus colegas de escola que recordo com muita afeição, lamentando que muitos deles não tivessem a minha sorte”.

Primeiro no Porto, depois em Barcelona, Pompeu estudou e pintou, começando a manifestar a sua forte aptidão para a arte pictórica.

Em 1978 realizou a sua primeira exposição individual em Fafe, apresentando telas hiper-realistas muito apreciadas, que lhe abriram as portas de Paris onde trabalhou e expôs em diversas ocasiões. A mostra no Centro Português da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1987, foi a sua rampa de lançamento para uma carreira artística que o levaria até aos Estados Unidos da América e ao Japão, onde mantém galeristas. O contacto com outras culturas e realidades artísticas estiveram na origem da sua evolução pictórica. “Se continua-se a fazer telas hiper-realistas, que aliás me davam muito dinheiro, teria cristalizado. As pinturas gestuais e concepcionais deram-me um cunho pessoal apreciado um pouco por todo o mundo.”

Mestre Pompeu afirma nunca ter pintado por encomenda, “nunca o fiz e jamais o farei, tive já várias propostas nesse sentido, mas quando me pedem para pintar esta ou aquela cor, este ou aquele motivo, perco logo a vontade de o fazer”. O artista gosta de conceber obras originais, criadas pela sua imaginação, muitas vezes inspiradas na sua aldeia. Exterioriza os seus sentimentos na tela, criando “uma espécie de monólogo”, reflectindo estados de espírito e “aconselhamentos da natureza”. Referiu ter algumas influências: Da Vinci, Dali, Nadir Afonso, Júlio Resende e Cargaleiro, foram os citados.   

Em 1998 o Município de Fafe, reconhecendo a sua celebridade, agraciou o artista com a Medalha de Ouro de Mérito Concelhio. Um galardão que orgulha o pintor, que em momento algum perdeu de vista a sua terra natal. “A minha aldeia de Cepães é o meu refúgio, é lá que resido e espero ficar até o fim dos meus dias”, confessou.

 Orlando Pompeu é um ser humano amigo e solidário, muito preocupado com o destino de Portugal na actual conjuntura politica, económica e social. As suas recentes obras de sátira política são disso reflexo. “Os artistas não podem ser insensíveis à dor e ao sofrimento humano”, exclamou o mestre que, confessou não gostar muito de ler jornais e ver televisão.

Considera-se um homem rico, pela família e lar que conseguiu formar e mantém com muito amor. No aspecto económico afirma ser um remediado que vive confortavelmente.

 


Aspecto da Mega Exposição de Orlando Pompeu, Fafe 2012



“O Centro Cultural Orlando Pompeu foi uma ideia minha que, no imediato, está posta de parte, pelos custos elevados e por saber que Fafe tem outras prioridades”.

O sonho de Orlando Pompeu é ver a sua obra depositada em Fafe. Há uns anos surgiu uma proposta que implicava a atribuição de um subsídio vitalício de 2.000 Euros mensais que o Município pagaria até à morte do casal. Foram muitas as vozes contraditórias e o negócio não foi concretizado. Orlando Pompeu afirma que estão em causa 300 pinturas sobre tela e mais de 5.000 desenhos, “são os meus filhos pictóricos que representam mais de três décadas de intensa produção artística que quero guardar para a minha cidade. Já tive propostas de compra de algumas dessas obras de um senhor endinheirado do Dobai, exportador de petróleo, mas o dinheiro não é o mais importante e quero que esses quadros fiquem na terra mãe”, confessou o pintor.

Confrontado com o “boato” que já estaria a receber dinheiro da Câmara Municipal, Pompeu desmentiu categoricamente; nem um euro! Exclamou. “O que é verdadeiramente importante é o Município de Fafe adquirir a minha obra, o resto é o mais fácil, porque certamente não iremos viver para sempre neste marasmo cultural, politico, social e económico. Eu prefiro vender a minha obra por um sexto do seu valor à minha cidade a vê-la partir para o Dubai ou para qualquer outro lugar pelo seu real valor comercial”.

O executivo Camarário, pela voz do seu Presidente, José Ribeiro, admitiu estar a estudar uma outra forma que viabilize a manutenção da obra de Orlando Pompeu em Fafe. “O Pompeu é de Fafe e a sua obra tem de ficar em Fafe”, afirmou o líder autárquico na inauguração da Mega Exposição patente ao público, considerando-a o regresso do reconhecido artista fafense às suas origens. “Estamos a puxá-lo para Fafe”, afirmou na mesma altura José Ribeiro.

 

“Sou um pouco excêntrico e não importo nada de ser comparado com o genial Einstein”

Orlando Pompeu é um homem afável, sensível, generoso, pacifista, solidário, bom conversador, culto, que gosta de reencontrar amigos e conhecidos de infância pelas ruas do seu torrão natal. Confessa que não gosta de velocidade, até porque, quando conduz, gosta de apreciar a natureza, as paisagens e os pormenores que também são fonte de inspiração para os seus trabalhos. Considera-se algo excêntrico, detesta a vulgaridade e não se importa nada de ser comparado com a figura de Einstein. Teve formação católica mas há muito deixou de frequentar missas. Tem, um enorme fascínio pela mãe natureza, abraça a vida com optimismo e talvez por isso tenha receio ao sofrimento e à morte. Idolatra a sua família: a companheira que chama “mamã” e os seus dois filhos. Não é um homem de vícios mundanos, tenta uma maior longevidade cuidando da sua saúde física e mental. É sociável mas tem necessidade de se isolar para concentrar-se nos seus projectos artísticos que classifica de “originais e genuínos”.   

 

“A cultura em Fafe está no bom caminho mas há hábitos que devem ser criados”

Pompeu considerou que a cultura em Fafe é diversificada e existe muita oferta de espectáculos, exposições e outras manifestações artísticas com relevância. Contudo, “apesar do esforço da autarquia, Fafe tem ainda muitas carências ao nível da sensibilidade, da ética, da formação e da educação. No país vizinho, por exemplo, assistimos a longas filas de espera para assistir a um evento cultural”. Na opinião do mestre Pompeu isto acontece pelo facto de pais e professores criarem hábitos culturais nos mais novos. Citando Froid, disse que “a criança é pai do homem”. Se não incutirmos boas práticas nos mais jovens será mais difícil, no futuro, garantir público nas realizações culturais, defendeu Orlando Pompeu que está muito satisfeito em poder realizar a sua maior exposição individual de sempre na Terra que o viu nascer, ambiciona ver criadas condições favoráveis que permitam ao Município de Fafe adquirir o seu espólio pictórico de trinta anos de frutuosa carrreira.

 

Jesus Martinho

 

 


 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A PROPÓSITO DA ICONOLOGIA DA JUSTIÇA DE FAFE

 



Desafio o caro leitor a fazer uma pesquisa na Internet sobre a “Justiça de Fafe”. Eu fiz, no Google, e fiquei pasmado com tanto despropósito, tanta ignorância, tanta retórica desprovida de sentido, desfasada de uma realidade evidente que só alguns (poucos) alcançam.
A quase totalidade dos escritos, presumidamente interpretativos da “Justiça de Fafe”, que encontrei fazem a correspondência do monumento concebido nos anos 80 do século passado, colocado nas traseiras do Tribunal, com a conhecida lenda do Visconde de Moreira do Rei. Salvo raríssimas excepções, todos os autores afirmam que o símbolo da “Justiça de Fafe”, materializado em estátua, foi inspirado na lendária rixa, com varapaus, protagonizada por dois deputados nas cortes portuguesas do século XIX.
Alegadamente, a maioria dos autores, repetindo-se, parecem ter uma espécie de miopia intelectual que os impede de enxergar o óbvio.


Reprodução do jornal "O Desforço" 7 Novembro 1907


Parece-me que a iconografia da “Justiça de Fafe” nada tem a ver com qualquer duelo entre deputados. O que, claramente, eu vejo é um musculado homem do Povo empunhando um cacete (pedaço de pau, com um dos extremos mais grosso, usado para dar pancada), ameaçando um burguês.
A estátua da “Justiça de Fafe”, já aqui o disse, é uma ligeira recriação de uma gravura datada dos inícios do século XX, publicada em 1907 (O Visconde de Moreira do Rei morreu em 1891).

As lendas são isso mesmo: o imaginário popular que chegou aos nossos dias com versões distintas… não passam disso, e é nesse âmbito que devem ser encaradas, descodificadas, e preservadas como Património Imaterial, tão na moda dos nossos dias.
Portanto, após constactar o óbvio, resta-me continuar a indagar o que terá inspirado o artista, ainda anónimo, que desenhou o símbolo da “Justiça de Fafe” há mais de um século.

Um dia destes darei também a minha opinião sobre a “relação”, quanto a mim, errada entre a “Justiça de Fafe” e o afamado Jogo do Pau (Esgrima Lusitana).




segunda-feira, 29 de março de 2021

CAFÉ AVENIDA COMPLETOU 112 ANOS

 





O interior do Café Avenida poucos anos depois da inauguração
Reprodução do Almanach Ilustrado de Fafe



O Café Avenida, a funcionar na actualidade, o de maior longevidade em Fafe, abriu no dia 1 de Março 1909, pouco tempo depois da abertura da "Avenida da Estação", há  112 anos.

Fundado pelo malogrado António Dias Saldanha Peixoto, em sociedade com Manuel de Freitas Fernandes, o "Avenida" foi o primeiro Café requintado da vila de antanho; na época, existia apenas um outro café mais antigo, designado por "O Figurão".

Em 1909, em termos de restauração, Fafe tinha cinco hotéis, uma hospedaria e dois restaurantes; um total de doze Casas de Pasto completava o conjunto de negócios onde se podia comer e refrescar as gargantas.

O "Avenida" foi pioneiro, em Fafe, no conceito de Café luxuoso, uma casa de convívio e diversão, inspirado noutros estabelecimentos existentes apenas em grandes cidades.


A notícia da abertura do Café Avenida no semanário "O Desforço", em 1909





Reprodução do "Almanach Illustrado de Fafe"

António Dias Saldanha Peixoto foi o principal fundador e impulsionador do Café Avenida durante cerca de uma década.



A Primeira publicidade


Reprodução do "Almanach Illustrado de Fafe", 1909




Um testemunho dos anos 50 (séc. XX)

«Era uma sala rectangular com grandes espelhos que reflectiam as lindas mesas com tampos de mármore branco, à volta das quais estavam belas cadeiras construídas em madeira nobre. Ao fundo, do lado esquerdo, para quem entrava no café, havia um belo balcão, atrás do qual estava uma estante de várias utilizações. O bilhar de quatro tabelas antecedia a grande porta que dava para o caramanchão, lindo e ameno recanto onde nas tardes de Verão se bebia um bom verde  acompanhado de petiscos, conversas sobre História, Filosofia e Política. Por isso o Avenida se chamava o café dos intelectuais.
A burguesia culta frequentava-o diariamente e ali convivia com pequenos comerciantes, industriais e gente de todo o estrato social. Dizia-se, aí pelos anos cinquenta, que no Avenida se aprendia a Democracia, a Liberdade, o respeito pelo diferente».

In: “António Saldanha – Lembrar um Homem, de António Teixeira da Silva e Castro, Braga 1998.



Reprodução do "Almanaque Ilustrado de Fafe"

António Augusto da Silva Saldanha foi o mais carismático e distinto proprietário do Café Avenida. O seu humanismo e forte convicção politica antifascista, motivou a inclusão do seu nome na toponímia da cidade de Fafe em 1978.








segunda-feira, 22 de março de 2021

O desaparecido Snack-Bar Dom Fafe


Numa época de franco progresso, com a vila a mostrar-se mais movimentada, mesmo fora das “quartas” de Feira, com muita gente a circular pelo centro da urbe, José Maria Moura Dias Azevedo, José Leite da Silva e Carlos Moura Dias Azevedo, em Sociedade, lançaram o Snack-Bar “Dom Fafe”, localizado “num dos pontos mais centrais da vila, na Praça Oliveira Salazar (actual Praça 25 de Abril).

«Com Café, Sala de Chá e Restaurante, apresenta uma decoração original e música permanente.

As pinturas das paredes, electricidade e decorações, estiveram a cargo de Professores da Escola Técnica de Fafe. O mobiliário é da Casa Alexandre Leite da Silva & C., Lda. da cidade do Porto.

Tem serviço permanente de almoços, jantares e lanches.»

O novo estabelecimento foi inaugurado na tarde do dia 15 de Outubro de 1966, com a presença de Alberto de Meireles Campos e Dr. Artur Antunes Aguiar, respectivamente, Presidente e Vice-presidente da Câmara Municipal, Padre Joaquim Leite Araújo; Eng. Mário Valente; Augusto Francisco Soares de Carvalho e António José Rodrigues de Carvalho, decoradores do Snack-Bar; Eng. João da Conceição Azevedo, responsável pela parte elétrica; outros convidados e imprensa.

Após um “copo d’água”, o pároco Leite Araújo e o Presidente da Câmara Municipal fizeram o elogio à nova casa e aos seus empreendedores.

Com uma longevidade de 47 anos, o “Dom fafe” foi um dos mais emblemáticos “Cafés” da antiga vila e da cidade. Fechou as suas portas em finais de 2013, dando lugar a uma pastelaria.

Lembra-se?


 

segunda-feira, 15 de março de 2021

História ferroviária fafense começou há 150 anos

 



CAMINHO DE FERRO “AMERICANO” PODIA TER CHEGADO A FAFE NO SÉCULO XIX


A origem do troço ferroviário Trofa a Fafe prende-se a uma concessão feita ao italiano Simão Gattai. Em 11 de Julho de 1871, visando a construção de um caminho-de-ferro “americano”, sobre estrada, ligando o Porto a Braga, com passagem por Santo Tirso e Guimarães.

Em 28 de Dezembro de 1872, o governo alterou as condições da concessão, obrigando ligar o caminho férreo proposto à linha do Minho, por Vizela e Fafe.

«Tendo o governo concedido licença a Simão Gattai, por decreto de 11 de Julho de 1871, para estabelecer um caminho de ferro americano (rail road) entre o Porto e Braga, por Santo Thyrso e Guimarães, sobre as estradas reais nºs 32 e 27;

Pedindo o mesmo Simão Gattai auctorização para empregar locomotivas na exploração do dito caminho; e não podendo esta autorização ser concedida sem que o emprezario se obrigasse a construir o caminho em leito próprio, alterado o traçado e modificadas as clausulas e condições da primitiva licença;

Vista a acceitação de Simão Gattai: Hei por bem modificar e alterar as disposições do decreto de 11 de Julho de 1871, nos termos dos artigos seguintes:

I O concessionario Simão Gattai efectuará á sua custa:

1º Os estudos e a construção de um caminho de ferro de via reduzida com todas as suas dependencias entre um ponto do caminho de ferro do Minho, proximo ao rio Ave e as Taipas, com um ramal de Fafe por Vizella, a entroncar na linha principal entre Santo Thyrso e Guimarães. » (…)

O ministro e secretário d’estado dos negocios das obras publicas commercio e industria assim o tenha entendido e faça executar.

Paço, em 28 de Dezembro de 1872. = Rei. = António Cardoso Avelino.

Diário do Governo nº 4, de 7 de Janeiro de 1873

In: http://legislacaoregia.parlamento.pt/Info/about.aspx



"Americano" na cidade do Porto, cerca de 1880

 

Em 1874, por falência de Simão Gattai, a concessão foi trespassada à companhia inglesa “Minho District Railway Company, Limited” e, por despacho de 18 de Fevereiro do referido ano, foi dispensada a construção do ramal de Fafe.

Desta forma, foi gorada a intenção de fazer chegar, à vila de Fafe, um caminho-de-ferro, por tracção animal, transporte este que viria a ficar obsoleto em inícios do século XX.

A “Sala de Visitas do Minho” ficou mais de três décadas à espera do seu caminho-de-ferro; do tão ambicionado melhoramento, que só chegaria em 1907.

Manteve-se o transporte a cavalo e os “trens” de tracção animal, fora de trilhos de ferro, por caminhos tortuosos de pouca “realeza”…

O “americano”, afinal, não chegou a Fafe…



"Americano" na Póvoa de Varzim, Cerca de 1880


 


segunda-feira, 8 de março de 2021

O TESOURO DE ARNOZELA


Em 1903, a antiga freguesia de Arnozela revelou um dos mais importantes tesouros da arqueologia conhecidos em Portugal.

Fortuitamente, foi achado um conjunto de joalharia composto por 19 braceletes e uma argola, em ouro, trabalhado durante a Idade do Bronze (médio), cerca de 1.500 a.C.

Actualmente, este espólio, integra a exposição permanente, “Tesouros da Arqueologia Portuguesa”, no Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa.



Reprodução da revista "Portvgalia", 1905

Ricardo Severo (1869-1940), engenheiro, arqueólogo e político foi o primeiro especialista a estudar este “tesouro” então na posse dos negociantes portuenses, Borges & Irmão, que não chegaram a efectivar a compra dos braceletes aos achadores.

Os «20 aros de formas e dimensões diversas, com um peso aproximado de 533 gr., que se encontravam originalmente encadeados e/ou suspensos de um outro» foram adquiridos pelo Museu Etnológico de Lisboa pelo valor de 600.000 réis. Era, assim, evitada uma gananciosa fundição e resgatado, para a ciência, um importante espólio arqueológico cronologicamente enquadrável entre os finais do 2º milénio a.C. e o início do 1º milénio a.C.



Um dos braceletes de Arnozela


«… O Dr. Eduardo de Freitas, cuidadoso investigador d’esta região, informa-nos sobre o local onde se encontrou o molho dos braceletes: foi, de facto, em Arnozella, n’um pequeno valle da vertente norte da serra de Penouta, onde o acharam uns pedreiros, quando excavavam junto a um penedo, a dois palmos de profundidade. (…) No sitio não há tradição nem vestígios de antiga povoação, nem tão pouco junto ao penedo encontrou o nosso informador outros indícios, o que o faz justamente suppôr que se trata de thesouro escondido a que o próprio penedo servia de marco de referencia.»

In: SEVERO, Ricardo (1905b) – «Vária. Notas e Comunicações. Os Braceletes d'Ouro de Arnozela». Portugália materiais para o estudo do povo português, 2 (1); p. 62-71

 


Exposição "Tesouros da Arqueologia Portuguesa"
Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa


Actualmente, o “Tesouro de Arnozela”, um eminente espólio da joalharia dos finais pré-historia peninsular, encontra-se exposto no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, na sala “Tesouros da Arqueologia Nacional”.

Fica o breve apontamento de mais um importante património móvel fafense que, fatalmente, acabou por sair de Fafe…

Links para consulta:

http://www.museunacionalarqueologia.gov.pt/?p=4161

 

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segunda-feira, 1 de março de 2021

Antiga casa de José Florêncio Soares um caso gritante de abandono


Outrora palácio faustoso, uma das mais importantes e antigas casas de “brasileiro” de torna-viagem da vila dos finais do século XIX, desapossado do seu recheio, chegou aos nossos dias em inquietante estado de conservação. Um caso gritante de abandono. Uma vergonha para uma cidade que “quer ser a terra mais brasileira do país”.

 

O nosso Teatro-Cinema é um dos mais importantes e emblemáticos edifícios históricos da cidade. Exemplarmente recuperado em 2008, aquela bela sala de espectáculos foi devolvida aos fafenses no dia 25 de Abril de 2009.

Frente à exuberante fachada do Teatro existe um outro imóvel histórico, uma casa construída pelo influente “brasileiro” de torna viagem, José Florêncio Soares, em finais do século XIX.

Este magnífico palácio, datado de 1861, foi, durante mais de centúria e meia, residência de uma abastada família fafense.

 

Nos anos 80 do século passado o edifício foi abandonado e, na actualidade, encontra-se bastante degradado.

Pouco antes da reabertura do Teatro-Cinema, o Município mandou colocar uma tela na fachada do imóvel fronteiro para esconder o seu mísero estado de conservação. A referida tela apodreceu e acabou por cair, desmascarando o triste cenário de uma das mais antigas e simbólicas casas “brasileiras” de Fafe, em preocupante estado de conservação.

 

O nosso Teatro-Cinema, desde a sua reabertura, recebeu milhares de pessoas: Audiências de espectáculos e os mais variados eventos.

O teatro é tão bonito! É uma pena aquela antiga casa estar naquele estado!" Ouvi da voz de um forasteiro, oriundo de Lisboa.

Mais que ter “pena”, urge tomar uma atitude, desenvolver esforços para salvar aquele Património Arquitectónico agonizante.

 


Sabemos que a crise económica comprometeu o futuro imediato deste país, contudo, Fafe não pode continuar a perder os seus valores históricos, testemunhos importantes da herança de fafenses que outrora partiram, criando riqueza e regressaram, contribuindo indubitavelmente para o desenvolvimento desta terra.

Fafe tem obrigação de respeitar a memória colectiva dos “brasileiros” de torna-viagem e, a melhor forma de o fazer é conservar e valorizar o seu invulgar património arquitectónico e espólios relacionados.

Se não forem tomadas medidas urgentes e eficazes de protecção, dentro de poucos anos, Fafe perderá, irremediavelmente, o estatuto de “cidade mais brasileira de Portugal”!

 

O historiador Miguel Monteiro, no seu livro “Fafe dos “brasileiros” (1860 – 1930), Perspectiva Histórica e Patrimonial, 2004 (2ª edição), faz uma descrição bem elucidativa da importância histórica deste imóvel:

«José Florêncio Soares, natural de Fafe, nasceu em 4 de Março de 1824 e faleceu em 1 de Abril de 1900. Casou no Brasil com D. Maria Teresa da Costa, natural do Rio de Janeiro, filha de Domingos José da Costa, natural de Oliveira de Azeméis, e D. Senhorinha Jesuína da Silva, natural de Minas Gerais, estado de Minas Cerais, Brasil.

José Florêncio emigrou, em 20/10/1837, para o Brasil com 13 anos de idade.

Foi um dos emigrantes mais bem sucedidos no Brasil, revelando a sua obra perspicácia, espírito cívico e filantrópico invulgar. Antes dos 40 anos constrói esta majestosa casa (1861), participa activamente na fundação da Fábrica do Bugio, da qual veio a ser o único proprietário.

 

Aparece a liderar o grupo de «brasileiros» promotores da construção do Hospital da Misericórdia de Fafe, cópia de outra casa de caridade do Rio de Janeiro, a pedido de seu pai, médico, angariando donativos para a sua construção junto da comunidade de «brasileiros» de Fafe. A iniciativa teve êxito bastante para que rapidamente se desse inicio à construção da benemérita obra, expoente da filantropia dos «torna-viagem» de Fafe. Em 21/3/1863 fez-se a abertura da primeira enfermaria com nove camas e, desse facto, o jornal O Comércio do Porto, dizia em 21/3/1863.

 


Retrato de José Florêncio Soares, primeiro proprietário da casa.

(Reprodução do "Almanach Illustrado de Fafe, 1910)

 

 

“Abre-se quinta-feira em Fafe a parte do Hospital que se acha feita

e com capacidade para receber nove doentes. Este estabelecimento de caridade deve-se aos esforços de alguns cavalheiros de Fafe e muito particularmente ao Sr. José Florêncio, que tem sido incansável em promover os meios para levar a efeito um tão útil como humanitário estabelecimento.

 

[…] Na quinta-feira à noite dá o Sr. Florêncio, distinto Cavalheiro de Fafe, um esplêndido baile. Fazem-se grandes preparativos para esta função, que promete ser sumptuosa. A Casa do Sr. Florêncio é das mais lindas de Fafe e o salão de baile é magnífico».

 

Como presidente da câmara liderou as principais obras dos finais do século XIX, das quais se destaca ainda o Jardim Público. Do entusiasmo com que se dedicou à causa ficaram belos registos na imprensa local, tendo sido tão polémica a sua relação com as forças vivas do concelho, que decidiu mandar esculpir em gesso e de tamanho natural três dos seus opositores, colocando-os na casa de banho da sua casa com os seguintes dizeres: «EMBARGARAM OS MUROS, EMBARGARAM OS PÓRTICOS, EMBARGARAM A CASA, EMBARGARAM TUDO»

 

Sabemos que um destes seus opositores foi Mons. João Monteiro Vieira de Castro e que o facto gerou tal curiosidade na vila que muitas foram as visitas às esculturas. De facto, este aposento terá sido o mais visitado, chegando tal curiosidade até ao século XX.

Distinguiu-se como o principal benfeitor da construção da Igreja Nova de São José, interrompida após a sua morte por muitos anos.

Do seu perfil e carácter ficou testemunho no epitáfio, que mandou gravar: «AQUI JAZ JOSÉ FLORÊNCIO SOARES QUE SEMPRE AMOU A VIDA E O TRABALHO».

 

Esta casa, verdadeiro palácio, mantêm-se quase sem alterações, com um riquíssimo mobiliário da época, onde existia uma harpa e um piano para animar recepções.

 

[…] Neste verdadeiro palácio de rés-do-chão e andar, telhado de quatro águas, salientam-se as grossas paredes de pedra e as esquinas, soleiras e ombreiras, de cantaria. Verdadeiro palácio ou solar urbano, nele ressalta a pompa das janelas e sacadas. Do átrio, em pedra lavrada, sai a escadaria em madeira exótica, que se desdobra em dois lanços, ocupando o centro do edifício. No rés-do-chão situam-se os escritórios e dependências de serviço e no andar, sobre a frente, um majestoso salão para recepções. O edifício é rebocado a branco, destacando-se no interior as madeiras preciosas, os estuques e os delicados móveis e porcelanas».

 

Foi assim que Miguel Monteiro viu o palácio de José Florêncio Soares, há cerca de três décadas… E agora?!