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terça-feira, 23 de março de 2021

ESTENDAIS VIRTUAIS

Cada vez há menos estendais, destes, corridos a corda de lado a lado e estendidos ao sol para toda a gente ver. Cada vez há menos... já ninguém quer as intimidades expostas a comentários alheios e críticas minuciosas ao borboto do pijama ou ao avental desbotado. Restam poucos. Destes estendais que se pavoneiam em frente de quem passa e não têm medo do que mostram, porque foi gasto pela vida honesta e purificado a sabão clarim. Gente de coragem esta, dos estendais espetados a ferro no caminho, corridos a corda de lado-a-lado e estendidos ao sol para toda a gente ver. A forma como esticam os lençóis, como prendem as molas, como dobram os lenços ou alinham as cores das camisolas. Gente honesta esta… dos estendais!

Cada vez há mais máquinas, lavandarias e varandins que nos tiraram do caminho e nos fecharam em paredes de cimento. Agora, já não torcemos a roupa de forma coordenada, uma mão para a direita e outra para a esquerda para libertar a água, como se nos apetecesse torcer algo ou alguém… Já não sacudimos os tecidos, duas e três vezes, da frente e do avesso, para libertar a pressão… Já não “solhamos” a roupa branca para desencardir a tristeza que trazemos na alma ou nos pesa o coração. Agora enfiamos tudo para um quadrado, aberto por um círculo e aguardamos que as voltas intermitentes varram a sujidade e nos tragam de novo o que lá metemos. No fim das voltas, abrimos a porta para um amontoado de peças soltas e engelhadas que não distinguimos, nem queremos sequer ordenar. Não esticamos, prendemos, dobramos ou alinhamos como aquela gente… a dos estendais!

Cada vez há mais estendais virtuais. Desses… corridos dedo acima para toda a gente comentar, estendidos à vista para toda a gente ver. Estendais de roupa usada, onde nada se sente da pureza da lavagem à mão ou da frescura do aroma a sabão. Toda a gente quer os comentários alheios e as críticas minuciosas ao pijama acetinado ou ao avental lustroso. E são muitos. Destes estendais que já não usam molas, nem escolhem o sol, nem sentem o vento. Aqui já não trocemos, sacudimos ou alinhamos como aquela gente, a corajosa e honesta... os poucos... dos estendais! 

Clara Paredes Castro






terça-feira, 9 de março de 2021

O MULHERIO

Na ressaca da celebração do dia da mulher e com o aproximar das eleições volta sempre a velha questão do envolvimento das senhoras na vida política. As autárquicas são muitas vezes a porta de entrada para um universo que só teria a ganhar com a aposta no feminino, mas esta porta não tem depois uma continuidade, faltando a escada de crescimento na carreira política.

Sendo Portugal, um dos países da europa com a maior taxa de mulheres trabalhadoras desde os anos 60, não se entende que esta proatividade, dinamismo e presença não se reflitam nas opções políticas. A introdução das quotas mais parece uma medida de estimulação idêntica às do desemprego, imposta por necessidade e como uma forma de resolver o assunto em termos estatísticos, sem grande perspetiva estratégica do que possa ser o futuro. Se não vejamos…. começamos por eleger maioritariamente meninas para delegadas de turma, mas são os rapazes que vão para a presidência da associação de estudantes. As professoras estão em maioria nas escolas, mas são os homens que ocupam os cargos de direção, as mulheres proliferam no desporto como atletas e treinadoras, mas poucas chegam à direção dos clubes. As senhoras estão ativamente nas empresas, nas indústrias, nos serviços, mas continuam a estar em minoria nas direções sindicais. Por outro lado, quem é maioritariamente o encarregado de educação? Quem vai às consultas com os filhos e dependentes, quem presta apoio na velhice? Quem nos atende nos hospitais? Quem nos recebe nos supermercados?

O que é que desmotiva as mulheres a querem mais, a serem mais ambiciosas, a estarem mais presente na gestão, na direção e também na vida política? A verdadeira igualdade de oportunidades é uma questão muito mais cultural do que legal e é por isso, que o empoderamento feminino deve ser estimulado bem cedo. Vamos incutir nas meninas a importância da liderança, vamos mostrar às adolescentes como é revigorante ser participativa, vamos permitir às mulheres serem continuamente interventivas e assim reconhecer, quem abre ao mundo o caminho da vida. Tivemos uma padeira de Aljubarrota a mostrar como se traça o caminho da vitória e enfermeiras a lançarem-se de paraquedas nos anos 60 e ainda temos de andar a fazer contas para deixar as mulheres liderar, como se fosse um free pass com data de validade até darem provas de merecimento. São mais de 40 décadas de democracia! Ramalho Eanes em 1979 indigitou Maria de Lurdes Pintasilgo e depois? Durão Barroso foi o primeiro a nomear para pastas de alta relevância, como as finanças e os negócios estrangeiros e depois? Passos Coelho indigitou mulheres para cargos tradicionalmente masculinos como a defesa, administração interna, agricultura, finanças e justiça e depois? Hoje em dia, apenas 1/3 do parlamento tem presença feminina e em 308 presidências de câmara apenas 32 são de mulheres. Isto representa um recuo civilizacional que legitima a ausência de participação das mulheres na política e contradiz a natureza que nos deu mais resistência à dor, maior resiliência para ultrapassar obstáculos, uma inteligência prática e sensibilidade para humanizar a política e o mundo. Precisamos das mulheres, na liderança, na tomada de decisões, no reforço de um regime democrático paritário, justo e inclusivo, para uma agenda pública na perspetiva feminina. A melhor forma de começar tudo isto? Por nós… mulheres! Se não somos nós a valorizar o feminino, como queremos que os outros o façam? Miguel Esteves Cardoso dizia que a mulher portuguesa é melhor que o homem, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Está na hora de assumirmos perante a nossa nobre nação, esta nobre missão de ser mulher e nela, elevar a vida pública, empresarial, desportiva, social e política.  

Clara Paredes Castro

(republicado a partir de um original de outubro de 2017, in Notícias de Fafe... e ainda incrivelmente atual)











Foto: Reprodução/Instituto Francês - If Cinéma

terça-feira, 2 de março de 2021

CONSTRUIR PONTES

Há uma grande diferença entre ser oposto ou ser diferente, ser invés ou ser distinto, ser contrário ou ser alternativa. Há uma grande diferença entre o atingido e o superado, entre o concluído e o sonhado, entre o executado e o inexcedível. Há uma grande diferença entre opinião e decisão, entre hesitação e concordância, entre juízo e aceitação, entre coragem e inação. E nesse lapso da diferença estamos nós! Pessoas. Neste limbo que separa os “entres”, os “ses”, os “mas”, os “talvez”, e os “quem sabe um dia”, desta vida. No espaço que intermeia os desafios, os erros, a coragem, o perdão, as aproximações e os esquecimentos. E a simplicidade da vida está precisamente na forma como cada um escolhe olhar para este fosso … aumentando o caudal ou construindo pontes. 

Porque a velocidade da vida e aquele instante onde tudo se perde, vêm muitas vezes recordar-nos a importância dos abraços de regresso das costas voltadas. Porque as distâncias às vezes são só proximidades esquecidas, as margens são ténues linhas desenhadas à luz da razão e quase nunca é sobre ter, mas sim sobre essa forma de vida, livre e apaixonante, de simplesmente ser... E somando tudo isto, será sempre o bater firme do coração a lembrar aos fossos, aos limbos, aos distantes, aos desavindos, às diferenças, aos opostos ou aos impossíveis, que o resultado não é tudo, porque tudo o que de mais importante temos na vida, está sempre por um triz…


Clara Paredes Castro










terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O ARCO ÍRIS DA VIDA

Escolhido como o símbolo máximo da resistência à pandemia, o arco-íris salta do imaginário infantil para o nosso quotidiano, como uma espécie de representação de uma sonhada vitória da luz sobre a escuridão. Na verdade, a cor sempre teve esse efeito em nós. Associamos cores às emoções, às sensações, aos gostos e paladares, aos sentidos, às estações... As cores identificam posições políticas, escolhas clubísticas, ruborizam rostos de esforço, de prazer ou de timidez, empalidecem pessoas por medo, doença ou tristeza, identificam chakras, rotulam vinhos, mostram áureas, ditam moda, escondem defeitos. A cor posiciona marcas, representa países, ajuda a mudar o visual. A cor tem tons e intensidades como a música, tem variações como o humor, identifica géneros em azul e rosa e até dá nome a peixes como o salmão. Passamos as noites em branco, estendemos tapetes vermelhos, trememos como varas verdes e temos sangue azul. Escolhemos dar carta branca, ver a vida cor de rosa ou ficar verdes de inveja. O sorriso é muitas vezes amarelo e o humor pode bem ser negro.

Processamos pelo nervo ótico um feixe de radiação eletromagnética que, mais que uma frequência de onda, nos reflete um estado de espírito. Na verdade, são os nossos olhos que definem a cor, mas é muitas vezes a nossa alma que a identifica. Quem nunca sentiu a vida a preto e branco quando tudo à volta era colorido, quem nunca se viu sem luz quando tudo parecia tão claro, quem não conhece alguém que perante um arco-íris só consegue dizer que chove.

As cores têm esse dom de serem apreciadas de forma diferente por todos, com gostos e privilégios, com escolhas e decisões. Uma mulher identifica 40 tons de verde, desde o “musgo” ao “limão”, enquanto que para um homem adjetivar um “verde tropa” já é uma exceção. O sol na realidade é branco e a atmosfera da terra faz com que pareça amarelo. ​As cores são essa suave contradição que serve para nos mostrar que a realidade não é preto no branco e há um Joan Miró dentro de cada um de nós, pronto a dar-lhe os tons, as variações e as alternâncias… Sim! Somos nós que definimos o que pode ser garrido, deslavado, caloroso, suave, envolvente ou apenas escuro e sombrio… basta percebermos que o mundo é maravilhosamente colorido quando escolhermos olhar a vida pela lente da cor e não aceitamos ficar presos a um daltonismo de alma, que nada identifica ou distingue. Porque as pessoas são também elas cor... com total ausência de luz ou de uma claridade que se sobrepõe a todas as outras. Quentes, frias ou neutras, muitas vezes numa pouco definida e indistinta sombra de cinzas. Mas há sempre um arco-íris… e felizes os que têm essas pessoas das sete cores… as que se misturam em água e sol quando tudo à volta parece escurecer, as que se erguem em curva para dar cor à vida, as que são vermelho-amor, laranja-sabor, amarelo-luz, verde-esperança, azul-imensidão, índigo-intuição e violeta-infinito. Porque são essas as que nos relembram a cada aparição, que é possível a tal vitória da luz sobre a escuridão. 

 Clara Paredes Castro



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

“Carrum navalis” ou “carnem levare”?

Ao que parece nem para a origem do Carnaval há consenso. Os romanos tinham algo parecido com os atuais carros alegóricos, os chamados “carros navais” em formato de navio de madeira, onde levavam homens e mulheres nus a desfilar pelas ruas. A versão mais comum diz que o termo vem da expressão “carnem levare” que significa algo como “ficar livre da carne”, uma explicação que tem mais a ver com os cristãos, porque a data marca a despedida dos excessos e o jejum que se aproxima na Quaresma. Mas as origens e desdobramentos do Carnaval não têm necessariamente a ver com a religião. O Carnaval é uma festa de origem pagã e na antiguidade simbolizava a passagem do inverno à primavera, da escuridão à luz, do velho ao renascido. Nos hebreus era a festa das sortes; nos gregos antigos, as “bacanais”; em Roma, as “saturnais”, dedicadas ao deus da agricultura e para os gauleses, a celebração da grande despedida do inverno. Em comum, a festa, a música, a dança, o disfarce… e os excessos! O Carnaval permitia aos foliões escapar das punições usando disfarces, como em Itália, onde no século XV os nobres usavam máscaras para poder andar na gandaia nos bailes da corte, sem que se descobrisse a sua identidade.

Certo é que o Carnaval é sinónimo de reversão, com as normas de comportamento a serem suspensas e aceites… infelizmente apenas por 3 dias! Desde os primórdios, o Carnaval é a época onde foliões e carnavalescos aproveitam para satirizar a situação político-económica, chamar a atenção para questões de interesse social, recortar importantes acontecimentos históricos ou simplesmente vestir as roupas da mulher e andar de tacão alto, com os pêlos a saírem da meia de renda e o batom a rivalizar com a barba de três dias. Vá lá… é carnaval! Os foliões podem sempre alegar que a celebração afeta o seu comportamento, deixando-os enlouquecidos. E convenhamos, a loucura é sempre uma boa explicação para os excessos. E depois, nada como um bom desvario seguido de um ato de penitência… uma cruz de cinza na testa e eis por excelência, a quarta-feira de arrependimento do pecado e do início do jejum carnal.

Hoje as máscaras são sinónimo de proteção, mas os disfarces continuam por aí, os excessos são cada vez mais desejados e a liberdade de festejar sem estar mascarado é um sonho adiado. Sem corso carnavalesco podemos sempre apreciar o desfile de alegorias em que as redes sociais se transformam e basta um olhar mais atento para ver de tudo: as sátiras, os porta-bandeiras, os sambistas, os bobos da corte, os palhaços, os travestis, … todos à espera de um bom entrudo chocalheiro, onde as figuras mascaradas todas de igual se esbarram umas nas outras, cometendo as mais diversas tropelias, só para ver quem chocalha mais alto! Afinal não é só no Carnaval... na vida real, ao que parece, também ninguém leva a mal...certo?!

Clara Paredes Castro



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

LIVRO LIVRE

Numa época em que estamos em casa e com mais tempo livre, lamento que não se implemente nada a nível cultural, como por exemplo, um incentivo à leitura. A biblioteca municipal está fechada, mas quando se fecha uma porta deve pensar-se em abrir uma janela e esta é uma oportunidade única para se implementar na biblioteca, a entrega ao domicílio. Quando em maio do ano passado foram um exemplo na adoção e implementação das alterações na utilização dos equipamentos e serviços das bibliotecas, em período COVID-19, deveriam desde logo, ponderar a preparação para as vagas seguintes da pandemia. 

O catálogo está disponível, já é possível fazer requisições por telefone e por e-mail... era só torná-la "itinerante". Estabelecer um dia para entregas, fazer um circuito de distribuição obedecendo a normas de segurança, usar invólucros possíveis de descartar. O leitor poderia aceder ao catálogo online a partir de casa, escolher o que pretendia requisitar, enviar um correio eletrónico com as referências e agendar a entrega. Podia estabelecer-se o limite máximo de livros, os dias de recolha, as regras e cuidados nas entregas. Há vários exemplos por esse país fora: Maia, Póvoa de Varzim, Alcácer do Sal, Santo Triso, Lousa, Mealhada, Felgueiras… Não é assim tão difícil! Porque não usar-se a Polícia Municipal para ajudar nas entregas, criar uma rede de voluntários ou, melhor ainda, apoiar ao mesmo tempo os taxistas de Fafe e pagar-lhes este serviço. Um duplo incentivo, cultural e económico! 

Mais! Porque não convidar as boas gentes do teatro local, artistas, poetas e escritores a declamarem poesia, a dizerem textos em pequenos vídeos, a gravarem reflexões sobre leituras interessantes para várias idades e colocá-las nas redes sociais do município ou disponibilizarem-nas através dos e-mailes institucionais dos alunos, em articulação com os agrupamentos.

Mais ainda... nesta altura que toda a gente faz arrumações nas gavetas e estantes lá de casa, porque não fazer um espaço de doações, onde a mesma equipa que entrega as encomendas, também recolhe livros usados. A Biblioteca Municipal criaria um espaço, junto com as equipas de ação social, onde se fizesse a seleção do que se podia oferecer a famílias, a associações culturais, bairros, juntas de freguesia, etc. Cultura, solidariedade, educação, consciência ambiental, flexibilidade, partilha! Tão bom falar de cultura em movimento... tão simples falar de liberdade em confinamento. Basta tornar o livro livre, soltá-lo das estantes, desviarem-nos os olhos dos ecrãs, fazerem-no chegar até nós, onde estamos agora, ou pelo menos onde devemos estar... em casa mas com um bom livro por companhia.

 Clara Paredes Castro





terça-feira, 26 de janeiro de 2021

ESCREVER FUTURO

Estamos em confinamento é certo, mas porque não aproveitar para fazer mais pelo nosso território e pelas suas gentes? Tal como perceber o que poderia ser melhor para si, o que sugerir no seu bairro, na vossa aldeia, no nosso concelho, em todo o país! Conhecer melhor o nosso património, as suas estruturas, o que gostariam de ter na vossa terra. Vejam. Leiam. Observem. Conheçam a nossa história e analisem o presente.... pensem bem no que querem para o futuro. Vamos fazer uma corrente de ideias, de novidade, de soluções! Ver exemplos de outros locais, de outras cidades, do mundo! Quero isto. É disto que precisamos! Publiquem as vossas sugestões com a referência QUERO ISTO PARA FAFE (#queroistoparafafe), criem grupos com amigos, com vizinhos, partilhem as vossas experiências profissionais e pessoais que sejam aceleradores da mudança, do impulso, da novidade. Vejam os livros que podem emprestar, as músicas que devem sugerir, o que temos em casa que podemos dar, o que precisamos muito de receber. Ouçam pessoas. Escutem-se a vós mesmos... 

É desta ação social que precisamos. A que sai de cada um de nós, identificada, personalizada e direcionada. A que faz acontecer.... O que nós podemos fazer individualmente pelo bem comum, vai muito além do que a sociedade tem como resposta e estar sentado à espera que tudo se resolva em gabinetes ou reuniões já não nos serve. Querem diferente? Sejam diferentes! Fujam da mesmice, do costumeiro, da crítica ligeira e do banal. Está na hora de baixarmos o dedo apontado e segurar numa caneta para escrever o futuro. O vosso e o de todos nós.  


Clara Paredes Castro



Foto: creativeart www.freepik.com 





terça-feira, 19 de janeiro de 2021

UM VOTO DE CONFIANÇA

Domingo não vamos só votar, não vamos só colocar uma cruz, não vamos só cumprir o nosso dever cívico… domingo vamos escolher! E essa é talvez a maior das nossas liberdades, a escolha! O poder de optar, indicar, preferir e selecionar quem nós queremos ou o que nós queremos é um ato de autonomia, emancipação e independência demasiado poderoso para permitirmos que outros o façam por nós, que sejamos iludidos com conversas sobre cores, com a adjetivações de pessoas ou com a instrumentalização ideológica.

Estarmos com um papel em branco à nossa frente, isolados numa caixa, a sós com a nossa consciência não é só um momento de reflexão, é a demonstração da nossa força enquanto peças da sociedade, é um ato de contrição onde nos colocamos perante o sistema que nos rege e dizemos de nossa justiça o que queremos… para nós e para os outros! Se a democracia é entendida como um governo do povo ou o governo da maioria, não se pode pensar em democracia sem a participação da sociedade nas decisões políticas.. e se não concordamos com o menu que nos colocam à frente, que possamos deixá-lo em branco, mas com a coragem de o olhar em frente e dobrá-lo em quatro, como um guardanapo depois de uma refeição. 

A importância do voto é tão só a importância da pertença, do ser societário, do respeito pela nossa liberdade e pela liberdade dos outros, da honestidade da escolha, da confiança no gesto. Winston Churchill dizia que "a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros", que a abstenção não seja o pior dos nossos limites, porque a liberdade não pode ser uma exceção sobre todos os outros.


Clara Paredes Castro











terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A VIDA ÀS DÉCADAS

Ver a nossa vida em blocos de décadas é um exercício interessante. O que nos diz o mundo aos 10, 30 ou 70 anos? Como somos nesses períodos? O que trouxemos até hoje? O que aprendemos? O que perdemos? Hoje, vejo-me num meio termo entre a 4.ª e 5ª década e percebo a curiosidade dos 10 anos, a coragem dos 20, a força dos 30 e a experiência dos 40. E este simples paralelismo faz-me perceber que precisamos de fazer um exercício de análise das próximas décadas, para nos prepararmos para elas. Não só com o que queremos à nossa volta, mas sobretudo com aquilo que nós podemos dar de volta! E se o que vemos e ouvimos não nos emociona então vai ser preciso escolher entre espernear como se tivéssemos 10 anos, manifestar como se tivéssemos 20, revoltar como se tivéssemos 30 ou fazer o que os 40 nos aconselham...  unir, argumentar, sugerir, contrapor, pensar e... agir! Ver a vida através das décadas não é só adjetivar o tempo, é agir com paciência, é aceitar os desafios e sonhar com esperança! Hoje, amanhã ou nas décadas que estão para vir, num compromisso infinito com o que ainda podemos viver e sem que nos digam que ainda há impossíveis de conseguir. 

Clara Paredes Castro



terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O SOL DE INVERNO

 “Está frio. Mas está sol. Pelo menos não chove.” Este é mais ao menos o tema de conversa por estes dias, logo a seguir à saudação de Bom Ano! Mas é inverno, estamos no Norte, não há nada de novo nesta equação e um simples exercício de memória é a prova disso mesmo. Este gelo seco já nos obrigava a ir para a escola todos embrulhados, sem conseguir mexer os dedos na velha carteira inclinada feita de madeira. Ou a fazer rápido o trabalho de matemática para ir à professora mostrar o resultado, só porque havia um aquecedor perto dela. Ou a sair de casa a “bufar” fumo e com a ponta do nariz gelada, vestidos com 4 camadas de roupa que faziam os nossos braços parecer o boneco Michelin. Ou a meter aquele gorro ridículo que não dizia com nada e aquelas meias que até tinham algum borboto, mas eram as mais quentinhas. E as luvas… aquelas às riscas coloridas ou com um dedo de cada cor. Já para não falar da nossa amiga botija. A botija de água quente embrulhada aos pés da cama onde enrolávamos o pijama para quando fossemos trocar de roupa, ou aquele cobertor elétrico ligado à corrente que parecia tirado de um filme de terror. E aquele exercício acrobático de enfiar os pés nas barras do aquecedor a óleo e ficar com eles todos tortos…e ainda levar um sermão porque aquilo ainda pode fazer frieiras?! E aquele ato arriscado de pôr um cobertor por cima do aquecedor que cobrisse toda a gente ou quase… havia sempre alguém a puxar por ele, a destapá-lo e a deixar entrar uma brisa enquanto víamos a Tieta desnudada na televisão ou o anúncio à Thermotebe que a criança tinha e o seu pai também (machismos intoleráveis por estes dias). 

Sair de casa com um manto branco a toda a volta e escorregar na calçada não é de agora. É de sempre! Mas hoje o frio toca-nos mais que outrora. Hoje que temos janelas duplas, ares condicionados, roupas com sistemas tecnológicos anti-tudo... hoje trememos mais que nunca. Estamos frios. Nós! Não o tempo. Pelo menos não chove. Mas é inverno em muita gente que não consegue encontrar o norte e a sorte está do lado de quem encontra um sol de inverno, daqueles que duram mais que uma estação.

Clara Paredes Castro



terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O PODER DE 2021

Se 2020 parece que nos fugiu das mãos, em 2021 teremos muito poder sobre elas! O poder de eleger o novo Presidente da República, o poder de decidir quem queremos aos destinos da nossa autarquia, o poder de escolher quem queremos a gerir a nossa junta de freguesia, o poder de ser vacinado, o poder de voltarmos a ser livres, o poder de escolher continuar a viver, com responsabilidade. Se 2020 parece que nos paralisou, em 2021 voltaremos às decisões!  Decidir como voltar aos beijos improvisados, aos abraços instintivos, aos encontros desejados. Decidir como reescrever a nossa história, como reerguer um país, como aprender de novo a caminhar. Decidir como queremos o nosso presente e como vamos construir futuro…

Sê bom 2021! Cicatriza as feridas abertas. Arruma a desordem. Apaga os medos. Reacende a vida. Traz-nos evolução, liberdade, movimento. Se 2020 nos ensinou a valorizar, a reagir, a pausar… vê lá o que tu nos ensinas. Dá-nos pelo menos a maior das certezas, de que o tempo e os afetos são as melhores das nossas medicinas.

Clara Paredes Castro



terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O NATAL É QUANDO, AFINAL?

Muito se tem falado do atípico natal deste ano e de todas as contingências para o celebrar. Desde sempre ouvimos dizer que o natal é quando o homem quiser, mas agora apercebemo-nos que nem isso!

A história diz-nos que o natal começou como uma celebração do solstício de inverno, nas festas em honra de saturno, o NATALIS INVICTI SOLIS ou aniversário do sol invicto. O Papa Júlio I resolveu antecipar a festa do nascimento de Jesus de 6 de janeiro para esta data, numa tentativa de converter os romanos ao cristianismo, sem deixar de lhe associar uma festa. Os romanos definitivamente sabiam gozar bem a vida! Além disso, Dionísio o monge erudito matemático, criador da contabilização AC/DC (Antes de Cristo e Depois de Cristo) não considerou o ano 0 na sua contagem, porque na Europa não se conhecia este número criado pelos árabes. Numa boa teoria da conspiração, à moda de Hollywood, poderíamos até dizer que afinal ainda estamos em 2019! Sabemos que as cores associadas ao natal têm alguma ligação histórico-cristã, porque o vermelho simboliza o sangue de cristo, o dourado a luz e o verde, o renascimento e a esperança. Mas nem na história dos magos nos podemos fiar, porque na bíblia não é explicita a referência aos três. Ouro, incenso e mirra foram os presentes entregues, mas só na idade média aparecem os nomes e o upgrade para reis.

Conclui-se, portanto, que sim, o natal é quando um homem quiser, como, quando e onde puder! Mas acima de tudo que o natal são sabores, celebrações e memórias e essas ninguém nos pode tirá-las. Seja o sabor do jantar de família na tasca depois de fechar as portas ao povo, seja o cheiro do lume no natal da aldeia, de prato na mão porque não cabíamos 40 à mesa, seja o bacalhau assado na brasa, comido com broa no almoço da véspera, para dar energia à tarde toda passada em frente ao fogão.  

Só quando nos deixamos crescer é que nos esquecemos de tudo isto e queremos voltar a ser crianças. Só quando deixamos de escrever desejos de natal é que nos esquecemos da alegria que é receber. Só quando deixamos de sonhar é que nos esquecemos do que realmente queremos oferecer aos outros e não é na lista de compras que o vamos encontrar. Na França, por exemplo, é tradição de natal irmos fazer as pazes com alguém, simbolizando a reconstrução de elos e o início de uma nova jornada. Já na Irlanda faz-se um percurso a 12 pubs e deixa-se torta de carne e cerveja Guiness na chaminé ao Pai Natal, em vez das bolachinhas e do leitinho morno. 

Seja em tradição, em história, em memórias, seja em contagem AC/DC (Antes do Covid e Depois do Covid) o que realmente interessa é o natal que cada um de nós é capaz de viver dentro de si, celebrando um aniversário de luz invicta, despertando a capacidade de procurar a estrela que guie a direção dos seus sonhos e entregando o "ouro", "incenso" e "mirra" a quem mais amam, sejam eles traduzidos em tempo, espaço, amor ou apenas e só em futuro.

Clara Paredes Castro 











terça-feira, 8 de dezembro de 2020

CONSEGUIRÁ FAFE SER UMA SMART CITY?

Por estes dias realizou-se o WebSummit, o maior evento do mundo de tecnologia, empreendedorismo e inovação e pela primeira vez, num formato totalmente online. Do longe se faz perto e do global se faz o local e o evento fez-me pensar na realidade da nossa cidade e no impacto da tecnologia nas nossas vidas. No WebSummit falou-se nas Smart Cities, as cidades inteligentes que usam a tecnologia para tornar os locais sustentáveis e a vida das pessoas mais simplificada. Sim porque as cidades inteligentes são as que se conseguem desenvolver economicamente, ao mesmo tempo que aumentam a qualidade de vida dos habitantes ao gerar eficiência.

Edifícios construídos segundo regras de sustentabilidade; redução das emissões de carbono; uso de transportes amigos do ambiente; sensores que detetam a qualidade do ar e ainda permitem aos usuários receber informações em tempo real sobre congestionamentos; serviço de acesso wifi gratuito para os moradores do município; cultivo, desenvolvimento e atração de capital humano; coesão social... são alguns exemplos. Dir-me-ão que uma cidade pequena como a nossa não poderá competir a esse nível, mas eu discordo. É nos desafios difíceis e aparentemente impossíveis, que o caminho se torna na Vitória. Quero com isto dizer que não podemos deixar de visualizar o futuro da forma que o sonhamos, só porque o presente nos limita os horizontes que temos. 

É certo que, como em tudo na vida, o equilibro é o melhor peso, mas a excentricidade é sem dúvida o melhor combustível. A tecnologia que pode fazer parte da nossa cidade, já faz parte da nossa vida e torna tudo mais simples, ágil, disponível, mais impessoal dizem, menos humanizado... mas mais eficaz e acessível. A pandemia trouxe para dentro da nossa vida as aulas online, o teletrabalho, as aplicações para treinos, as receitas culinárias no youtube, as gargalhadas do TikTok para nos provar que o seu objetivo não é o de nos distanciar. Ela não rouba emoções nem sentimentos, a quem os tem no lado certo do peito. Se nós conseguirmos, enquanto ser humanos, ser capazes de usar os meios tecnológicos para dizer o que sentimos, o que desejamos, o quanto estamos presentes, assim também uma cidade mais digital não deixará de ser bairrista, social e humanizada se assim for a sua essência. Senão vejamos, esta tecnologia que usamos para que leiam este texto, serve para nos unir? De todo! É pela tecnologia que me ligo a si mas é pelas palavras que nos unimos, porque só elas tem a capacidade de criar empatia e conexão. Percebem a diferença?

 Clara Paredes Castro



terça-feira, 1 de dezembro de 2020

2020 COMEÇA HOJE A ACABAR

Está quase...faltam 30 dias para acabar o ano de 2020! Dezembro é conhecido em todo o mundo como um mês de celebração e de família, em honra a culturas, religiões e tradições que acompanham a humanidade há centenas de anos. Nunca como este ano se ansiou tanto por um fim, apesar de nem sempre ser assim. No calendário solar de 46 a.c. este era o mês 10 ou “decem” em latim, depois de Júlio Cesar copiar um modelo usado pelos faraós egípcios, que acreditavam que o ano começava em março e terminava em Fevereiro. Mas hoje começa o último mês de 2020 e o mundo clama para que ele se acabe como se, por milagre e a uma só voz, uma expurga caísse sobre nós. Mas se há algo que a história nos dá, são esses exemplos de ontem que nos ensinam as vivências de hoje, como a força do tempo, da luta, da esperança e da vida...senão vejamos.

Restauramos a independência em 1640 depois de 70 anos de domínio espanhol. 120 conspiradores juntaram-se na manhã de 1 de dezembro para derrubar a dinastia espanhola que governava o país. Miguel de Vasconcelos, que representava os interesses castelhanos, foi morto a tiro e atirado pela janela. A restauração da independência só seria reconhecida pelos espanhóis 27 anos depois, com a assinatura do Tratado de Lisboa... O que nos ensina a história? A força do tempo. A necessidade da independência. A luta pela liberdade. 

Neste mesmo dia 01, Lincoln fez um discurso para acabar com a escravidão, em 1910 ficamos a conhecer a nova bandeira de Portugal, celebramos o Dia Mundial da Luta contra a Sida, foi neste dia que Inglaterra e França se uniram através de um túnel no fundo do mar... O que os ensina a história? A força da luta. A necessidade de ousar ser diferente. A atitude perante a dificuldade.

O primeiro natal foi celebrado no ano de 336 e a primeira árvore de Natal artificial foi feita na Alemanha, apenas com penas de ganso, pintadas de verde! Uma antiga lenda afirma que os animais da floresta podem falar a linguagem humana na véspera de Natal e o presépio, agora com tantos animais, foi uma criação de São Francisco de Assis. Em 1647, Oliver Cromwell, proibiu as festas por serem vistas como imorais num dia tão santo e quem fosse visto comemorar seria preso! O que nos ensina a história? A força da esperança. A necessidade da fé. A alegria perante a adversidade. 

A 25 de dezembro nasceu Issac Newton e no mesmo dia, em anos diferentes, o mundo despedia-se de Charle Chapllin. Em 8 de dezembro de 1981, Jonh Lennon era assassinado por um fã maluco, 118 anos antes, no mesmo dia era fundada a FIFA. Nostradamus, nasceu no mesmo dia em que morreu o primeiro presidente dos EUA, George Washington, com o intervalo de 296 anos entre ambos. O que nos ensina a história? A força da vida. A necessidade de aceitação. A resiliência perante os factos.

2020 começa hoje a acabar e todos queremos que chegue ao fim, mas o grande ensinamento da história ainda está para vir! É certo que precisamos da força do tempo, da luta, da esperança e da vida mas acima de tudo, precisamos da certeza desse presente que não nos é dado por garantido, que não nos é entregue encaixilhado em baixo de uma árvore, que não vem embrulhado em promessas do advir, mas que deve ser o mote para deixar ir, essa dor, do confinamento, do distanciamento ou do desamor..., o presente que nos faz ver mais para cima do que em frente, que nos dá a luz e um novo olhar...o presente que é resgatar a nossa capacidade de sonhar! 

Clara Paredes Castro


Foto: Município de Fafe


terça-feira, 24 de novembro de 2020

O MANIFESTO FAFENSE

É mesmo isto que nos falta! Um manifesto. Sim, estou a falar de cultura. Não daquela que vem nos livros, que está exposta em galerias ou se reflete em luzes de néon, mas daquela que é daqui mesmo… só nossa! A cultura popular, fafense, única e irrepetível. A que nos dá o tom, o sabor e a cor…. a cultura que se faz num momento de vida. É dessa que temos de falar, não da cultura que se confunde com a etiqueta, com o erudito, com a elite ou que é quase sinónimo de civilização. Cultura desta que vos falo é herança, manifestação, informação, criação, dinamismo… humanização!

É isso que sinto quando olho para o nosso quarteirão da cultura, que parece ir perdendo as linhas que o desenham do Santo Velho ao Santo Novo, que passa na Biblioteca e se passeia até ao rosa do Arquivo, que parece manter os museus numa incubadora, que procura emoldurar o Teatro numa viela estreita e que estica as suas raízes até à Estátua da Justiça, a clamar precisamente por ela! Essa mesma que continua estranhamente escondida, sem abertura digna, à passadeira vermelha que um dia lhe será devida. Desço para olhar as arcadas do centro, as claraboias dos edifícios, as paredes que respiram história nos azulejos e sinto que estamos a perder memória. Vejo a pronúncia acentuada a diluir-se, os cânticos das colheitas que já se ouvem ao fundo, as lendas que se perdem para o mundo, as receitas que nem nos papeis amarelados sobrevivem, as expressões dos nossos avós a serem já de bisavós, e, com tudo isto, vejo esvair-se a identidade de todos nós. É desta cultura que estou a falar. A que corremos o risco de perder, se não formos a geração que quer correr o risco de a ganhar. 

E é por tudo isso que vos digo… que o que nos faz falta, é um manifesto!
Um texto feito pela comunidade e que a convoque para uma ação, que seja persuasivo, evocativo da nossa realidade, que enuncie em 10 pontos a nossa cultura, os seus desafios, a ação exigida. Os 10 mandamentos que nos vinculem a uma ideia de futuro. Feito agora, no presente! Imperativo, factual, direto e assumido! 

Que grande legado deixaria este bramido às futuras gerações. Que arrojo teríamos nós ao criarmos o 1.º Grande Manifesto Cultural Local. Só nosso... feito com gente daqui, pensado para gente que queremos que continue por cá e projetado para aqueles que ainda estarão para vir. Um manifesto que agora começo, na esperança que alguém, um dia o queira ver continuado.

Clara Paredes Castro


MANIFESTO FAFENSE
24 de novembro de 2020

Caros conterrâneos de hoje e amanhã!
De Fafe lançamos ao mundo, este nosso manifesto. Com Fafe, ninguém fanfe!

É preciso…  


(...to be continued...) 



Foto: Jesus Martinho 




terça-feira, 17 de novembro de 2020

O MEDO QUE NOS PARALISA

E eis que o vírus nos bateu à porta com toda a força! E o que era previsível é agora real, com a incidência de casos nas duas últimas semanas em Fafe, a ser superior a 2200 casos por 100 mil habitantes. Não há agora como negar... vivemos tempos difíceis onde todos somos forçados a enfrentar o medo. E o medo que foi criado para nos defender do perigo, torna-se também o nosso maior inimigo, ou porque nos paralisa ou porque nos desafia! A pandemia veio com promessas de arco iris e canções inspiradoras que nos diziam que íamos todos ficar bem. Um confinamento no início do ano pôs-nos à prova como humanos, como sociedade, como pais, como companheiros e como amigos. Todos falhámos e todos nos superámos. Entre receitas de pão, aulas de fitness caseiro e sessões de zoom, mal ou bem, lá ficamos com a certeza que afinal até se podia bem com tudo isto. E eis que chega o verão e o sol que tudo cura… vitaminados poderíamos erguer de novo a nobre nação! Mas não. Como as marés vivas de outono, a segunda vaga da pandemia atingiu-nos, quando ainda estávamos relaxadamente à beira mar plantados. E vem o medo… de novo. O medo que nos expõe a verdade, que nos mostra o quão pouco damos valor à vida, ao abraço, ao afeto, à palavra, ao perdão. O medo que nos paralisa a liberdade, o conforto, o convívio, a união. E vem o vírus… de novo. O vírus que nos diz que não. E dizer que não é das coisas mais difíceis que queremos ouvir. Na era das vacinas, dos seguros de saúde, do dinheiro que tudo pode. Não! Não sabemos o que é viver sem consumo, sem multidões, sem escolhas. E de repente paralisamos. E eis que o medo, aquele que foi criado para nos proteger, vem para nos inquietar e de repente todos temos de lidar, quando até aqui, o medo estava reservado aos traumas e imprevistos. Mas é a biologia que nos diz que não podemos com tudo, porque só a vida nos pode desafiar. Porque afinal já nos importa a mercearia da esquina, o café de todos os momentos, o restaurante de todos os convívios, o concerto adiado e o fim de semana cancelado. Porque afinal já nos importa o agora e o presente, porque o futuro nem a deus pertence e nenhum de nós é dono do seu destino, como é da sua vontade. E é no medo, no silêncio, na dor, na solidão, na doença e no perigo que temos a oportunidade de ser a coragem, a voz, o conforto, a presença e o sentido. Ser tempo, cuidado e amor. A nós, ao próximo e ao outro. E ainda assim, muitas vezes não somos. Ainda assim… temos medo de ser!

Clara Paredes Castro 

Foto ilustrativa: Freepik Content


 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

FRONTEIRAS OU HORIZONTES

Às vezes não temos forma de ver, senão olhando. Às vezes não temos forma de crescer, senão passando os nossos limites. Às vezes só temos forma de evoluir, explorando além da nossa fronteira. E há tanto por descobrir, quando temos o arrojo e a coragem para dar o primeiro passo. Fafe tem 6 concelhos vizinhos! Meia dúzia de locais cheios de oportunidades e prontos para gerar valor. Senão vejamos. Guimarães, património mundial com cerca de 80.000 turistas/ano, no tribunal ou ao hospital grande parte dos recursos humanos são de Fafe, excelentes vias de circulação, mercado têxtil. Projetos em comum? Rodamos o mapa em direção ao sul, Felgueiras, polo industrial do calçado, zona privilegiada para aproveitamento de sinergias… o que se tem feito além do projeto extenso, burocrático e protelado do Parque Industrial de Regadas? Circulamos na rosa dos ventos e a Oeste, Cabeceiras e Celorico de Basto dão-nos a porta de acesso ao interior do país, com a sua peculiar ruralidade, tradição, aventura e natureza. A norte, Vieira do Minho, um sem mundo de possibilidades, com a nossa montanha a ter entrada direta para o único Parque Natural do país. Ao lado, Póvoa de Lanhoso, um município que tem sabido trabalhar bem o empreendedorismo e o desenvolvimento económico. E o que fazemos nós com as fronteiras que nos desenham? Que traços nos unem, que projetos nos podem potenciar como região? Se estamos à espera das comunidades intermunicipais ou das estruturas burocráticas e pesadas, desenhadas num papel da capital e que não se evidenciam no terreno, não poderemos nunca aproveitar o que está além da nossa vista. É preciso sair da caixa literalmente e seja sentado no baloiço de Freitas, na margem do rio Vizela, no largo da igreja de Arões, no alto do moinho de Aboim ou a pescar trutas em Seidões, é preciso largar os gabinetes e sentarmo-nos ao lado dos autarcas vizinhos, para perceber como apagar as linhas que nos dividem e traçar as linhas que nos promovem. Com visão! Porque onde muitos ainda vêm fronteiras, outros já vislumbram horizontes.

Clara Paredes Castro





terça-feira, 3 de novembro de 2020

ISTO NÃO ESTÁ BOM NEM PRÁ INGRÍCULA

Vou falar do que não sei…. como se costuma dizer, não percebo muito de ingrícula. Mas sei que a minha terra é marcadamente rural, que tem esse jeito e trejeitos de ser evoluída, mas com a mão ainda no machado, o olhar no calendário das colheitas e o cheiro de quem adivinha a chuva, se as nuvens fogem para barroso. Por todas as freguesias há ainda um gosto especial de fabricar as terras, de ter produtos próprios pró caldo e ouvir o cantar dos galos pela manhã. A cidade também ela mantém muitos recantos retalhados e agora, com a pandemia, houve até quem passasse a ter pequenas hortas nas varandas dos prédios.

Isto a propósito do mercado biológico de Fafe que, sempre que acontece, me faz sentir uma lufada de ar fresco em relação ao que se pode fazer para valorizar os produtores locais que tão arduamente plantam sementes de saúde e colhem produtos de qualidade. Isto a propósito do quão pouco isto é para tudo o resto. Volto a dizer… falo do que não sei, mas ainda bem! É preciso que quem não sabe, pergunte muito, para os que pensam saber tudo, oiçam alguma coisa. Como se apoiam os agricultores desta nossa terra, como se promove a sua formação, o seu escoamento de produtos, a sua especialização? Como se incentivam os jovens agricultores, as grandes produções que, fruto dos apoios europeus, começaram a despontar concelho fora e muitas delas a precisar de enxerto para se manterem de pé? Dos pequenos, sei de muitos que são do tempo da carreira João Carlos Soares, que os trazia às quartas-feiras à feira para escoar as suas tronxudinhas, as nabiças, os ovinhos caseiros e os tomates fresquinhos e que agora, na iminência do fecho das feiras e da circulação mais limitada do povo, vão usar os produtos para alimentar os porcos, também eles a rarear cada vez mais.. assim como a “malhada” e a “marela” que tanto mugiam por esse concelho adiante, enquanto largavam seus fertilizantes naturais estrada fora…

Sei pouco sobre agricultura, mas sei que podíamos fazer muito mais! O nosso prato típico digno de festival continua sem ter a certificação da carne que lhe dá origem, uma ambição da confraria ainda não concretizada. Sei que os riscos ambientais do abandono dos terrenos agrícolas são enormes, sei que Cooperativa Agrícola de Fafe e a Cooperativa dos Produtores de Mel de Fafe tentam fazer o seu papel e com muita dificuldade. Sei que a agricultura biológica apresenta potencialidades económicas interessantes, pelo aumento da procura, mas que tem de ser enquadrada com uma ligação ao turismo rural e a uma rede sustentada de criação de produtos com qualidade.

Isto não está bom para ninguém, nem prá ingrícula, mas até que podia estar! E não é com olhinhos no céu à espera que as nuvens pr’a Amarante tragam tempo galante... É preciso preparar a terra, fazer a sementeira, regar, orar e ter paciência! Porque, como dizia Vergílio Ferreira, (isto para não ter de citar Saint Exupéry e a sua rosa), “O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou. 

Clara Paredes Castro


Fonte: retirada de um artigo digital (aqui)

 

Fonte: Manuel Meira / Município de Fafe




terça-feira, 27 de outubro de 2020

A BELA ADORMECIDA

Fafe está a viver uma espécie de conto da Bela Adormecida. Um fuso que nos eternizou um sono e não nos permite sonhar. Nesse conto existe um plano, denominado Plano Estratégico de Fafe, que prevê 7 medidas essenciais para o desenvolvimento do nosso território, a saber:

  1. Criação de uma agência para o desenvolvimento e requalificação
  2. Elaboração de uma carta do movimento associativo
  3. Criação do plano estratégico para a cultura
  4. Criação do plano geral de urbanização
  5. Implementação da cidade digital
  6. Elaboração do plano de dinamização empresarial
  7. Criação de um agente para a inovação

De entre estas medidas temos coisas tão marcadamente essenciais como criar ninhos de empresas, parcerias de cooperação do tecido empresarial, diversificação da atividade de produção agrícola com aposta na transformação e comercialização, criação de marcas nas empresas, formação especializada a gestores de empresas, centros e plataformas de cooperação, estimulação à participação de agentes, criação de parques de negócios e polos integrados de serviços, dinamização do centro urbano e do turismo rural, aumento da cobertura dos equipamentos sociais, plano integrado do ambiente, etc…

Tudo isto faz parte de um grande plano, auspicioso, arrojado e eminentemente necessário, datado de 2003, sim 2003! Com execução a 10 anos, sim até 2014. Um plano que já fazia falta há 17 anos atrás e que ainda hoje lá está, dormente, à espera de ser concretizado enquanto nós continuamos assim, entorpecidos, à espera de ser acordados e enquanto a nossa "bela" continua assim… anacronicamente adormecida, à espera de um beijo que a devolva à vida.

Clara Paredes Castro

+ INFO: Plano Estratégico do Município disponível para consulta aqui


Foto: José Carlos Santos in Olhares

Imagem: wikipedia

terça-feira, 20 de outubro de 2020

GEMINAMOS OU GERMINAMOS

Reconhece os locais destas imagens? Pois bem, apresento-vos as cidades-irmãs de Fafe! A catedral pertence a Sens, da região de Borgonha em França e a praia é de Porto Seguro no Brasil. De nada nos adianta sermos geminados com outros lugares, se sabemos pouco sobre isso ou se tiramos ainda menos proveito dessa situação. Na verdade, além de alguma representação em feiras de produtos tradicionais e conferências e das residências artísticas que tivemos há alguns anos, pouco se sabe sobre estes acordos que vêm desde 2009 e 2012.

Esta moda de geminar cidades foi muito forte no início do século e criaram-se mais de 600 acordos de cooperação com mais de 50 países, por esse Portugal fora. A relação intermunicípios veio depois mostrar, que se conseguiria mais com sinergias próximas, do que com relações internacionais que ficam num papel. De lá para cá, a grande maioria está desativada, quer por falta de projetos, quer devido às alterações políticas nos executivos camarários, que acabam por ditar o enfraquecimento das ligações. Mas que bom seria aproveitar estes contactos para tornar as relações mais simplificadas e desburocratizadas, para impulsionar a componente económica dos municípios envolvidos, para potenciar o turismo recíproco, para projetos específicos em áreas sociais, voluntariado jovem ou ambiente. Na verdade, quem investe e pensa nestas coisas, usa certamente outros recursos que não as geminações municipais porque possivelmente, nem conhecimento tem do potencial delas. Se nem nós fafenses sabemos que temos relações privilegiadas com estas cidades de França e Brasil de que nos serve? As nossas associações e clubes desportivos têm contactos com os de lá? Alguém alguma vez tentou importar caju ou coco que se produz em Porto Seguro? Há canais de venda de pão de ló ou vinhos? Já se promoverem circuitos turísticos de Fafe em Sens? Há referências às duas cidades no nosso posto de turismo?

Geminada refere-se a alguma coisa que forma par, que se encontra lado a lado de outra. Germinada é uma forma conjugada do verbo germinar, que é sinónimo de crescer e desenvolver. Está na hora de nos perguntarmos se queremos uma ou outra... Ainda que me pareça que estas relações deveriam ser vistas como sementes de crescimento e não como simples irmandades de papel.

Clara Paredes Castro

Sens, França



Porto Seguro, Brasil