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terça-feira, 9 de março de 2021

O MULHERIO

Na ressaca da celebração do dia da mulher e com o aproximar das eleições volta sempre a velha questão do envolvimento das senhoras na vida política. As autárquicas são muitas vezes a porta de entrada para um universo que só teria a ganhar com a aposta no feminino, mas esta porta não tem depois uma continuidade, faltando a escada de crescimento na carreira política.

Sendo Portugal, um dos países da europa com a maior taxa de mulheres trabalhadoras desde os anos 60, não se entende que esta proatividade, dinamismo e presença não se reflitam nas opções políticas. A introdução das quotas mais parece uma medida de estimulação idêntica às do desemprego, imposta por necessidade e como uma forma de resolver o assunto em termos estatísticos, sem grande perspetiva estratégica do que possa ser o futuro. Se não vejamos…. começamos por eleger maioritariamente meninas para delegadas de turma, mas são os rapazes que vão para a presidência da associação de estudantes. As professoras estão em maioria nas escolas, mas são os homens que ocupam os cargos de direção, as mulheres proliferam no desporto como atletas e treinadoras, mas poucas chegam à direção dos clubes. As senhoras estão ativamente nas empresas, nas indústrias, nos serviços, mas continuam a estar em minoria nas direções sindicais. Por outro lado, quem é maioritariamente o encarregado de educação? Quem vai às consultas com os filhos e dependentes, quem presta apoio na velhice? Quem nos atende nos hospitais? Quem nos recebe nos supermercados?

O que é que desmotiva as mulheres a querem mais, a serem mais ambiciosas, a estarem mais presente na gestão, na direção e também na vida política? A verdadeira igualdade de oportunidades é uma questão muito mais cultural do que legal e é por isso, que o empoderamento feminino deve ser estimulado bem cedo. Vamos incutir nas meninas a importância da liderança, vamos mostrar às adolescentes como é revigorante ser participativa, vamos permitir às mulheres serem continuamente interventivas e assim reconhecer, quem abre ao mundo o caminho da vida. Tivemos uma padeira de Aljubarrota a mostrar como se traça o caminho da vitória e enfermeiras a lançarem-se de paraquedas nos anos 60 e ainda temos de andar a fazer contas para deixar as mulheres liderar, como se fosse um free pass com data de validade até darem provas de merecimento. São mais de 40 décadas de democracia! Ramalho Eanes em 1979 indigitou Maria de Lurdes Pintasilgo e depois? Durão Barroso foi o primeiro a nomear para pastas de alta relevância, como as finanças e os negócios estrangeiros e depois? Passos Coelho indigitou mulheres para cargos tradicionalmente masculinos como a defesa, administração interna, agricultura, finanças e justiça e depois? Hoje em dia, apenas 1/3 do parlamento tem presença feminina e em 308 presidências de câmara apenas 32 são de mulheres. Isto representa um recuo civilizacional que legitima a ausência de participação das mulheres na política e contradiz a natureza que nos deu mais resistência à dor, maior resiliência para ultrapassar obstáculos, uma inteligência prática e sensibilidade para humanizar a política e o mundo. Precisamos das mulheres, na liderança, na tomada de decisões, no reforço de um regime democrático paritário, justo e inclusivo, para uma agenda pública na perspetiva feminina. A melhor forma de começar tudo isto? Por nós… mulheres! Se não somos nós a valorizar o feminino, como queremos que os outros o façam? Miguel Esteves Cardoso dizia que a mulher portuguesa é melhor que o homem, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Está na hora de assumirmos perante a nossa nobre nação, esta nobre missão de ser mulher e nela, elevar a vida pública, empresarial, desportiva, social e política.  

Clara Paredes Castro

(republicado a partir de um original de outubro de 2017, in Notícias de Fafe... e ainda incrivelmente atual)











Foto: Reprodução/Instituto Francês - If Cinéma

terça-feira, 2 de março de 2021

CONSTRUIR PONTES

Há uma grande diferença entre ser oposto ou ser diferente, ser invés ou ser distinto, ser contrário ou ser alternativa. Há uma grande diferença entre o atingido e o superado, entre o concluído e o sonhado, entre o executado e o inexcedível. Há uma grande diferença entre opinião e decisão, entre hesitação e concordância, entre juízo e aceitação, entre coragem e inação. E nesse lapso da diferença estamos nós! Pessoas. Neste limbo que separa os “entres”, os “ses”, os “mas”, os “talvez”, e os “quem sabe um dia”, desta vida. No espaço que intermeia os desafios, os erros, a coragem, o perdão, as aproximações e os esquecimentos. E a simplicidade da vida está precisamente na forma como cada um escolhe olhar para este fosso … aumentando o caudal ou construindo pontes. 

Porque a velocidade da vida e aquele instante onde tudo se perde, vêm muitas vezes recordar-nos a importância dos abraços de regresso das costas voltadas. Porque as distâncias às vezes são só proximidades esquecidas, as margens são ténues linhas desenhadas à luz da razão e quase nunca é sobre ter, mas sim sobre essa forma de vida, livre e apaixonante, de simplesmente ser... E somando tudo isto, será sempre o bater firme do coração a lembrar aos fossos, aos limbos, aos distantes, aos desavindos, às diferenças, aos opostos ou aos impossíveis, que o resultado não é tudo, porque tudo o que de mais importante temos na vida, está sempre por um triz…


Clara Paredes Castro










terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O ARCO ÍRIS DA VIDA

Escolhido como o símbolo máximo da resistência à pandemia, o arco-íris salta do imaginário infantil para o nosso quotidiano, como uma espécie de representação de uma sonhada vitória da luz sobre a escuridão. Na verdade, a cor sempre teve esse efeito em nós. Associamos cores às emoções, às sensações, aos gostos e paladares, aos sentidos, às estações... As cores identificam posições políticas, escolhas clubísticas, ruborizam rostos de esforço, de prazer ou de timidez, empalidecem pessoas por medo, doença ou tristeza, identificam chakras, rotulam vinhos, mostram áureas, ditam moda, escondem defeitos. A cor posiciona marcas, representa países, ajuda a mudar o visual. A cor tem tons e intensidades como a música, tem variações como o humor, identifica géneros em azul e rosa e até dá nome a peixes como o salmão. Passamos as noites em branco, estendemos tapetes vermelhos, trememos como varas verdes e temos sangue azul. Escolhemos dar carta branca, ver a vida cor de rosa ou ficar verdes de inveja. O sorriso é muitas vezes amarelo e o humor pode bem ser negro.

Processamos pelo nervo ótico um feixe de radiação eletromagnética que, mais que uma frequência de onda, nos reflete um estado de espírito. Na verdade, são os nossos olhos que definem a cor, mas é muitas vezes a nossa alma que a identifica. Quem nunca sentiu a vida a preto e branco quando tudo à volta era colorido, quem nunca se viu sem luz quando tudo parecia tão claro, quem não conhece alguém que perante um arco-íris só consegue dizer que chove.

As cores têm esse dom de serem apreciadas de forma diferente por todos, com gostos e privilégios, com escolhas e decisões. Uma mulher identifica 40 tons de verde, desde o “musgo” ao “limão”, enquanto que para um homem adjetivar um “verde tropa” já é uma exceção. O sol na realidade é branco e a atmosfera da terra faz com que pareça amarelo. ​As cores são essa suave contradição que serve para nos mostrar que a realidade não é preto no branco e há um Joan Miró dentro de cada um de nós, pronto a dar-lhe os tons, as variações e as alternâncias… Sim! Somos nós que definimos o que pode ser garrido, deslavado, caloroso, suave, envolvente ou apenas escuro e sombrio… basta percebermos que o mundo é maravilhosamente colorido quando escolhermos olhar a vida pela lente da cor e não aceitamos ficar presos a um daltonismo de alma, que nada identifica ou distingue. Porque as pessoas são também elas cor... com total ausência de luz ou de uma claridade que se sobrepõe a todas as outras. Quentes, frias ou neutras, muitas vezes numa pouco definida e indistinta sombra de cinzas. Mas há sempre um arco-íris… e felizes os que têm essas pessoas das sete cores… as que se misturam em água e sol quando tudo à volta parece escurecer, as que se erguem em curva para dar cor à vida, as que são vermelho-amor, laranja-sabor, amarelo-luz, verde-esperança, azul-imensidão, índigo-intuição e violeta-infinito. Porque são essas as que nos relembram a cada aparição, que é possível a tal vitória da luz sobre a escuridão. 

 Clara Paredes Castro



terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

LIVRO LIVRE

Numa época em que estamos em casa e com mais tempo livre, lamento que não se implemente nada a nível cultural, como por exemplo, um incentivo à leitura. A biblioteca municipal está fechada, mas quando se fecha uma porta deve pensar-se em abrir uma janela e esta é uma oportunidade única para se implementar na biblioteca, a entrega ao domicílio. Quando em maio do ano passado foram um exemplo na adoção e implementação das alterações na utilização dos equipamentos e serviços das bibliotecas, em período COVID-19, deveriam desde logo, ponderar a preparação para as vagas seguintes da pandemia. 

O catálogo está disponível, já é possível fazer requisições por telefone e por e-mail... era só torná-la "itinerante". Estabelecer um dia para entregas, fazer um circuito de distribuição obedecendo a normas de segurança, usar invólucros possíveis de descartar. O leitor poderia aceder ao catálogo online a partir de casa, escolher o que pretendia requisitar, enviar um correio eletrónico com as referências e agendar a entrega. Podia estabelecer-se o limite máximo de livros, os dias de recolha, as regras e cuidados nas entregas. Há vários exemplos por esse país fora: Maia, Póvoa de Varzim, Alcácer do Sal, Santo Triso, Lousa, Mealhada, Felgueiras… Não é assim tão difícil! Porque não usar-se a Polícia Municipal para ajudar nas entregas, criar uma rede de voluntários ou, melhor ainda, apoiar ao mesmo tempo os taxistas de Fafe e pagar-lhes este serviço. Um duplo incentivo, cultural e económico! 

Mais! Porque não convidar as boas gentes do teatro local, artistas, poetas e escritores a declamarem poesia, a dizerem textos em pequenos vídeos, a gravarem reflexões sobre leituras interessantes para várias idades e colocá-las nas redes sociais do município ou disponibilizarem-nas através dos e-mailes institucionais dos alunos, em articulação com os agrupamentos.

Mais ainda... nesta altura que toda a gente faz arrumações nas gavetas e estantes lá de casa, porque não fazer um espaço de doações, onde a mesma equipa que entrega as encomendas, também recolhe livros usados. A Biblioteca Municipal criaria um espaço, junto com as equipas de ação social, onde se fizesse a seleção do que se podia oferecer a famílias, a associações culturais, bairros, juntas de freguesia, etc. Cultura, solidariedade, educação, consciência ambiental, flexibilidade, partilha! Tão bom falar de cultura em movimento... tão simples falar de liberdade em confinamento. Basta tornar o livro livre, soltá-lo das estantes, desviarem-nos os olhos dos ecrãs, fazerem-no chegar até nós, onde estamos agora, ou pelo menos onde devemos estar... em casa mas com um bom livro por companhia.

 Clara Paredes Castro





terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A VIDA ÀS DÉCADAS

Ver a nossa vida em blocos de décadas é um exercício interessante. O que nos diz o mundo aos 10, 30 ou 70 anos? Como somos nesses períodos? O que trouxemos até hoje? O que aprendemos? O que perdemos? Hoje, vejo-me num meio termo entre a 4.ª e 5ª década e percebo a curiosidade dos 10 anos, a coragem dos 20, a força dos 30 e a experiência dos 40. E este simples paralelismo faz-me perceber que precisamos de fazer um exercício de análise das próximas décadas, para nos prepararmos para elas. Não só com o que queremos à nossa volta, mas sobretudo com aquilo que nós podemos dar de volta! E se o que vemos e ouvimos não nos emociona então vai ser preciso escolher entre espernear como se tivéssemos 10 anos, manifestar como se tivéssemos 20, revoltar como se tivéssemos 30 ou fazer o que os 40 nos aconselham...  unir, argumentar, sugerir, contrapor, pensar e... agir! Ver a vida através das décadas não é só adjetivar o tempo, é agir com paciência, é aceitar os desafios e sonhar com esperança! Hoje, amanhã ou nas décadas que estão para vir, num compromisso infinito com o que ainda podemos viver e sem que nos digam que ainda há impossíveis de conseguir. 

Clara Paredes Castro



terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O PODER DE 2021

Se 2020 parece que nos fugiu das mãos, em 2021 teremos muito poder sobre elas! O poder de eleger o novo Presidente da República, o poder de decidir quem queremos aos destinos da nossa autarquia, o poder de escolher quem queremos a gerir a nossa junta de freguesia, o poder de ser vacinado, o poder de voltarmos a ser livres, o poder de escolher continuar a viver, com responsabilidade. Se 2020 parece que nos paralisou, em 2021 voltaremos às decisões!  Decidir como voltar aos beijos improvisados, aos abraços instintivos, aos encontros desejados. Decidir como reescrever a nossa história, como reerguer um país, como aprender de novo a caminhar. Decidir como queremos o nosso presente e como vamos construir futuro…

Sê bom 2021! Cicatriza as feridas abertas. Arruma a desordem. Apaga os medos. Reacende a vida. Traz-nos evolução, liberdade, movimento. Se 2020 nos ensinou a valorizar, a reagir, a pausar… vê lá o que tu nos ensinas. Dá-nos pelo menos a maior das certezas, de que o tempo e os afetos são as melhores das nossas medicinas.

Clara Paredes Castro



terça-feira, 8 de dezembro de 2020

CONSEGUIRÁ FAFE SER UMA SMART CITY?

Por estes dias realizou-se o WebSummit, o maior evento do mundo de tecnologia, empreendedorismo e inovação e pela primeira vez, num formato totalmente online. Do longe se faz perto e do global se faz o local e o evento fez-me pensar na realidade da nossa cidade e no impacto da tecnologia nas nossas vidas. No WebSummit falou-se nas Smart Cities, as cidades inteligentes que usam a tecnologia para tornar os locais sustentáveis e a vida das pessoas mais simplificada. Sim porque as cidades inteligentes são as que se conseguem desenvolver economicamente, ao mesmo tempo que aumentam a qualidade de vida dos habitantes ao gerar eficiência.

Edifícios construídos segundo regras de sustentabilidade; redução das emissões de carbono; uso de transportes amigos do ambiente; sensores que detetam a qualidade do ar e ainda permitem aos usuários receber informações em tempo real sobre congestionamentos; serviço de acesso wifi gratuito para os moradores do município; cultivo, desenvolvimento e atração de capital humano; coesão social... são alguns exemplos. Dir-me-ão que uma cidade pequena como a nossa não poderá competir a esse nível, mas eu discordo. É nos desafios difíceis e aparentemente impossíveis, que o caminho se torna na Vitória. Quero com isto dizer que não podemos deixar de visualizar o futuro da forma que o sonhamos, só porque o presente nos limita os horizontes que temos. 

É certo que, como em tudo na vida, o equilibro é o melhor peso, mas a excentricidade é sem dúvida o melhor combustível. A tecnologia que pode fazer parte da nossa cidade, já faz parte da nossa vida e torna tudo mais simples, ágil, disponível, mais impessoal dizem, menos humanizado... mas mais eficaz e acessível. A pandemia trouxe para dentro da nossa vida as aulas online, o teletrabalho, as aplicações para treinos, as receitas culinárias no youtube, as gargalhadas do TikTok para nos provar que o seu objetivo não é o de nos distanciar. Ela não rouba emoções nem sentimentos, a quem os tem no lado certo do peito. Se nós conseguirmos, enquanto ser humanos, ser capazes de usar os meios tecnológicos para dizer o que sentimos, o que desejamos, o quanto estamos presentes, assim também uma cidade mais digital não deixará de ser bairrista, social e humanizada se assim for a sua essência. Senão vejamos, esta tecnologia que usamos para que leiam este texto, serve para nos unir? De todo! É pela tecnologia que me ligo a si mas é pelas palavras que nos unimos, porque só elas tem a capacidade de criar empatia e conexão. Percebem a diferença?

 Clara Paredes Castro



terça-feira, 24 de novembro de 2020

O MANIFESTO FAFENSE

É mesmo isto que nos falta! Um manifesto. Sim, estou a falar de cultura. Não daquela que vem nos livros, que está exposta em galerias ou se reflete em luzes de néon, mas daquela que é daqui mesmo… só nossa! A cultura popular, fafense, única e irrepetível. A que nos dá o tom, o sabor e a cor…. a cultura que se faz num momento de vida. É dessa que temos de falar, não da cultura que se confunde com a etiqueta, com o erudito, com a elite ou que é quase sinónimo de civilização. Cultura desta que vos falo é herança, manifestação, informação, criação, dinamismo… humanização!

É isso que sinto quando olho para o nosso quarteirão da cultura, que parece ir perdendo as linhas que o desenham do Santo Velho ao Santo Novo, que passa na Biblioteca e se passeia até ao rosa do Arquivo, que parece manter os museus numa incubadora, que procura emoldurar o Teatro numa viela estreita e que estica as suas raízes até à Estátua da Justiça, a clamar precisamente por ela! Essa mesma que continua estranhamente escondida, sem abertura digna, à passadeira vermelha que um dia lhe será devida. Desço para olhar as arcadas do centro, as claraboias dos edifícios, as paredes que respiram história nos azulejos e sinto que estamos a perder memória. Vejo a pronúncia acentuada a diluir-se, os cânticos das colheitas que já se ouvem ao fundo, as lendas que se perdem para o mundo, as receitas que nem nos papeis amarelados sobrevivem, as expressões dos nossos avós a serem já de bisavós, e, com tudo isto, vejo esvair-se a identidade de todos nós. É desta cultura que estou a falar. A que corremos o risco de perder, se não formos a geração que quer correr o risco de a ganhar. 

E é por tudo isso que vos digo… que o que nos faz falta, é um manifesto!
Um texto feito pela comunidade e que a convoque para uma ação, que seja persuasivo, evocativo da nossa realidade, que enuncie em 10 pontos a nossa cultura, os seus desafios, a ação exigida. Os 10 mandamentos que nos vinculem a uma ideia de futuro. Feito agora, no presente! Imperativo, factual, direto e assumido! 

Que grande legado deixaria este bramido às futuras gerações. Que arrojo teríamos nós ao criarmos o 1.º Grande Manifesto Cultural Local. Só nosso... feito com gente daqui, pensado para gente que queremos que continue por cá e projetado para aqueles que ainda estarão para vir. Um manifesto que agora começo, na esperança que alguém, um dia o queira ver continuado.

Clara Paredes Castro


MANIFESTO FAFENSE
24 de novembro de 2020

Caros conterrâneos de hoje e amanhã!
De Fafe lançamos ao mundo, este nosso manifesto. Com Fafe, ninguém fanfe!

É preciso…  


(...to be continued...) 



Foto: Jesus Martinho 




terça-feira, 20 de outubro de 2020

GEMINAMOS OU GERMINAMOS

Reconhece os locais destas imagens? Pois bem, apresento-vos as cidades-irmãs de Fafe! A catedral pertence a Sens, da região de Borgonha em França e a praia é de Porto Seguro no Brasil. De nada nos adianta sermos geminados com outros lugares, se sabemos pouco sobre isso ou se tiramos ainda menos proveito dessa situação. Na verdade, além de alguma representação em feiras de produtos tradicionais e conferências e das residências artísticas que tivemos há alguns anos, pouco se sabe sobre estes acordos que vêm desde 2009 e 2012.

Esta moda de geminar cidades foi muito forte no início do século e criaram-se mais de 600 acordos de cooperação com mais de 50 países, por esse Portugal fora. A relação intermunicípios veio depois mostrar, que se conseguiria mais com sinergias próximas, do que com relações internacionais que ficam num papel. De lá para cá, a grande maioria está desativada, quer por falta de projetos, quer devido às alterações políticas nos executivos camarários, que acabam por ditar o enfraquecimento das ligações. Mas que bom seria aproveitar estes contactos para tornar as relações mais simplificadas e desburocratizadas, para impulsionar a componente económica dos municípios envolvidos, para potenciar o turismo recíproco, para projetos específicos em áreas sociais, voluntariado jovem ou ambiente. Na verdade, quem investe e pensa nestas coisas, usa certamente outros recursos que não as geminações municipais porque possivelmente, nem conhecimento tem do potencial delas. Se nem nós fafenses sabemos que temos relações privilegiadas com estas cidades de França e Brasil de que nos serve? As nossas associações e clubes desportivos têm contactos com os de lá? Alguém alguma vez tentou importar caju ou coco que se produz em Porto Seguro? Há canais de venda de pão de ló ou vinhos? Já se promoverem circuitos turísticos de Fafe em Sens? Há referências às duas cidades no nosso posto de turismo?

Geminada refere-se a alguma coisa que forma par, que se encontra lado a lado de outra. Germinada é uma forma conjugada do verbo germinar, que é sinónimo de crescer e desenvolver. Está na hora de nos perguntarmos se queremos uma ou outra... Ainda que me pareça que estas relações deveriam ser vistas como sementes de crescimento e não como simples irmandades de papel.

Clara Paredes Castro

Sens, França



Porto Seguro, Brasil


terça-feira, 13 de outubro de 2020

UM ALTRUÍSMO MUITO PROFISSIONAL

Em Fafe sempre houve uma forma de abordar o desporto e a cultura muito altruísta! São centenas de pessoas envolvidas em eventos, organizações, campeonato e afins que dão o seu tempo de forma despretensiosa, voluntariosa e muitas vezes com investimento e sacrifício nas suas vidas pessoais. É assim também por esse país fora e ainda bem, porque um cidadão que não se dispõe em prol da sua sociedade, não vive claramente a sua essência.

Mas este trabalho de afinco e amor à camisola tem gerado cada vez mais profissionalismo nos resultados. Há rigor, qualidade e muito eficiência. O risco que isto acarreta é o de ver um produto muito bem produzido e embalado, a custos reduzidos, comparativamente com outros que são contratualizados a preços elevados e assim nos permitirmos a desinvestir aqui, para poder sobrar para acolá.

Isto a propósito do Open de Patinagem deste fim de semana em Fafe, mais uma vez organizado com rasgados elogios pelas entidades nacionais da modalidade, ainda que muitos outros exemplos existam em várias áreas. Não resisto a pôr no prato da balança, as rodas e as rodinhas! Não comparando o que não é comparável, vi o Rally em Fafe com um forte investimento público, algum retorno, mas ainda desconfiando do impacto real na vida dos fafenses e do envolvimento da nossa população no evento. E vejo por outro lado, um evento gerido por famílias de Fafe, associações locais e que envolveu 150 atletas, triplicando para pais e mães, mais staffs e equipas diretivas e técnicas. Em ambos os casos não houve público, pelas razões óbvias, mas se ponderarmos o fator-casa, a minha balança pesa claramente para as famílias altruístas que montam um evento desta natureza com fortes resultados, sem laivos de amadorismo, um real impacto local e pouco investimento público. Não quero com isto dizer que não se deve apostar no rally ou eventos altamente profissionais ou que tudo deve ser feito por amor à causa! Mas a verdade é que estamos numa época de fortes restrições financeiras, é preciso olhar mais localmente que globalmente, para fazer crescer os nossos e por isso, tudo deve ser medido e gerido com os olhos postos no nosso território. Todo este altruísmo profissional deve valer muito mais que uns parabéns e uns aplausos de ocasião e se todos devemos ter orgulho pelos que se dedicam à nossa terra de corpo e alma, outros devem fazer o balanço entre investir aqui e apostar no crescimento dos seus ou investir ali e esperar pelo retorno de outros. 

Clara Paredes Castro



terça-feira, 6 de outubro de 2020

DE ESCOLA PRIMÁRIA... A EDIFÍCIO SECUNDÁRIO

A propósito de um artigo, que falava do bom aproveitamento de antigos edifícios do ensino primário por esse país fora, olhei para a realidade de Fafe e percebi que estamos com a lição mal estudada. Das muitas escolas do concelho que foram encerradas, poucas foram aproveitadas para estar ao serviço da comunidade, da cultura, da economia ou do turismo. Edifícios fantásticos, carregados de história que podiam ser veículos de informação importante sobre as vivências e tradições, servir o turismo local ou alojar associações e instituições que trabalham em prol da cultura e da sociedade.

Estrategicamente não se vê nenhum caminho traçado a régua e esquadro que nos faça perceber como este património está a ser ponderado e isso parece-me um erro de palmatória. Há exceções… e boas! A Escola Deolinda Leite, em Silvares S. Martinho que foi transformada num Museu da Educação, com o objetivo de constituir uma memória da evolução do ensino em Fafe sobretudo ao longo dos séculos XIX e XX. Desconheço o número de visitantes e se os fafenses têm conhecimento deste local que devia, aliás, ser objeto de visitas dos alunos do concelho. Em Golães, o “Centro de Etnotecnologia e Design” dedicado ao artesanato de palha e em Aboim, o Centro Interpretativo - Aldeia Pedagógica da Montanha e do Centeio, instalado na antiga escola primária. Todos eles a precisarem de um toque de campainha que faça entrar gente!

Ainda que estes exemplos sejam inspiradores, muitos outros edifícios estão fechados à espera das novas oportunidades, fazendo-nos questionar sobre o que é que aprendemos com todo este percurso. É mais prático investir dinheiro público e depois ter os espaços recuperados e com pouca utilização? É melhor dar à sociedade civil a capacidade de os explorar e gerar valor? É distribuir pelas necessidades reais do concelho, para instituições que precisam de uma sede, bandas a precisar de um espaço ou coletividades que apenas precisam de um teto para crescer? Seja o que for é preciso que se saiba qual a estratégia, como se quer atuar e se há justiça na forma como esta distribuição é feita, sob pena de parecer que estamos no recreio em pleno jogo do galo, onde uns edifícios levam o círculo e outros ficam com a cruz.   

Clara Paredes Castro




Fotos retiradas do sítio da Câmara Municipal de Fafe




terça-feira, 29 de setembro de 2020

JUSTOS, ACELERADOS E AMANTES DE TANTA COISA

Por estes dias ouvi chamar a Fafe muita coisa: a terra justa, amante do desporto de duas rodas, capital do rally… estamos cheios de epítetos que nos elevam e valorizam tudo o que já sabemos...somos abnegados, apaixonados, solidários, acelerados e festeiros.

Mas sabem o que verdadeiramente dá vida a um território? São as pessoas! Eu, tu, nós, vós, os habitantes desta terra que tanto amamos e que, aos poucos, se esvazia de gente. Estamos a perder população a um ritmo que começa a ser preocupante. Em 2011 eramos 50.633, em 2018 já estávamos nos 48.271. Numa semana em que vemos os jovens de Fafe a entrar na faculdade esta questão volta a inquietar: será que voltam? Como se ajudam os jovens a ficar por cá? O que os cativa? Como está o mercado de habitação, emprego, onde estão as incubadoras de empresas, o incentivo à natalidade? 

Sejamos a terra justa das boas causas, mas que faz justiça aos seus jovens; a capital dos eventos de motor, que acelera o empreendedorismo; a sala de visitas para os que vêm de fora, mas o lar de sempre para quem ainda cá mora. Acima de tudo, sejamos um povo que continua a amar à distância se assim tiver se ser, que tenha a paixão pelo regresso se assim o conseguir, mas que permita aos que ficam, a coragem de exigir mais, sugerir mais e discutir mais sobre este território de 4 letras apenas, onde a assinatura pode ser simplesmente, a terra onde nasci e escolhi viver. 

Clara Paredes Castro 


    Imagem ilustrativa retirada do site www.a12.com


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

É merda, Senhores! É merda…

 


Não consigo deixar de dizer alguma coisinha sobre este caso da poluição lá para os lados da Barragem de Queimadela. A situação foi alarmante demais para deixar em claro. Não é pelo resultado dos esgotos. É mesmo pela atitude dos responsáveis autárquicos que teimam em fazer o que outros já faziam…

Ora vejamos, Gil Soares, nas suas caminhadas domingueiras, resolve alertar as entidades responsáveis pelo que se ia passando no leito do rio. Como se isso não bastasse, mil e uma desculpas foram encontradas, até chamar folhas em decomposição aos detritos, em vez de assumir logo que era preciso uma intervenção para acabar com o problema. Depois apareceu o vídeo e já todos parecem chocados. Pudera, já não dá para esconder, não é?

Como tapa olhos lá fizeram uma queixa ao Ministério Público e parece que chegou para fazer bater as palmas à oposição e aos mais preocupados.

Mas isto não chega para mim, ok?

Neste processo há dois grandes problemas: em primeiro, os governantes autárquicos continuam a querer desvalorizar os alertas daqueles que não os apoiaram – apelidando as suas atitudes de populares, mesmo que depois as tenham de assumir; em segundo, a comunicação da autarquia está mesmo fraquinha, porque se assumissem logo o problema, mesmo vindo de opositores, não deixavam transparecer o ‘tapar o sol com a peneira’.

Eu revejo-me em muito nas lutas de Gil Soares. Já fiz, em tempos, o mesmo em relação à minha terra – Regadas. Também senti o desrespeito e até o desprezo que muitos, que até se diziam meus amigos, me tentaram fazer só porque lutava para o bem da minha aldeia, o bem coletivo. Logo, percebo muito bem a defesa em prol de uma natureza saudável que vai passar em terras de Travassós… do Gil Soares!

Mas também não posso deixar de dizer que gostava que Raúl Cunha se desse bem. Já o disse. Já o escrevi. E continuo a afirmar. Em primeiro, porque o seu sucesso enquanto Presidente de Fafe será o nosso sucesso enquanto munícipes; Em segundo, porque a sua forma de fazer política inicial vem contrastar com a perseguição que existia a tipos como eu e como o Gil, só porque defendemos genuinamente as nossas terras.

É preciso diferenciar a campanha eleitoral das campanhas pelo bem comum. É preciso perceber que todos nós estamos de passagem, mas as nossas terras vão continuar… mesmo sem nós.

“Deixemos um mundo um pouco melhor.”

terça-feira, 22 de setembro de 2020

BAIRRISTA, COM MUITO GOSTO!

Nasci, cresci e vivo num bairro. E quem conhece esta realidade sabe o quanto isso nos faz ver a vida de uma forma diferente. Os bairros de Fafe fervilham atividade, convívio e vida! A "Torralta" fez de mim muito do que sou hoje, foi uma autêntica escola, com dezenas de jovens a fazer da rua o seu espaço e a aprenderem a ser pessoas. Todos os vizinhos nos chamavam pelo nome, berrava-se da janela para chamar para jantar, o atual estacionamento foi viveiro de grandes craques da bola, criavam-se alcunhas e grupos, o elástico e o espeto não eram materiais de costura e bricolage, mas instrumentos para grandes batalhas, juntávamo-nos para organizar festas e os dias pareciam não ter fim. Recordo tudo isso com a nostalgia de quem, ainda hoje, quando come uma bica, se lembra das caminhadas noturnas até à Parefa, com um pacote de Planta na mão, para a fazer derreter no pão ainda quente.

Saí da "Torralta" para a Pegadinha e eis-me bairrista de novo! Aos poucos foi-se construído a mesma amizade e companheirismo. As janelas abertas em noites de verão, as conversas de varanda em varanda e os miúdos na rua a jogar à bola ou ao esconde. Em épocas de confinamento, a importância dos bairros tornou-se ainda mais evidente e esta vivência de escadas, janelas e varandas mas, acima de tudo, de sorrisos, pessoas, vozes e alegria, faz dos vizinhos uma família de código postal.

Fafe tem esta riqueza profunda dos bairros que a compõem, todos eles tão distintos, mas tão assumidamente genuínos. Há diferenças dos que são destemidamente da Feira Velha, do Retiro, da Cumieira e de Pardelhas. Há um lado aguerrido na Cisterna, Bouças, Fonte da Cana, Santo Ovídeo ou Calvelos. Girando a rosa dos ventos vemos na Alvorada, Castelhão e Ponte da Ranha, uma forma de ser singular e diferente de todos os outros. Passamos o centro, desde a Torralta, à Granja, Devesinha, S. Jorge, Paraíso, até aos limites da freguesia, onde a Fábrica de Ferro, Pegadinha e Sol Poente dão mostras do quão apegados são às suas fronteiras e vizinhança.

Esta diversidade de bairros, carregados de história e proatividade, deve ser potenciada! Esta arrogância salutar, de querer defender o que é seu, ajudou a construir Fafe e a ser hoje, a cidade que é... Saibamos nós proteger esta riqueza e ajudar os bairros a manter a sua identidade, com o orgulho que devem preservar. Fafe é esta linda manta de retalhos, de bairros cheios de vida, atividade e energia, num jeito tão puro de ser, tal como eu me sinto, fafense e bairrista.

Clara Paredes Castro




quarta-feira, 2 de setembro de 2020

"Guimarães é bonito. Fafe não tem nada que ver!"

 

A frase está "entre aspas". Não é minha, assim tem de ser. Estas palavras foram proferidas, numa aula minha de 'Comunicação, Língua e Cultura', por uma formanda algarvia que resolveu visitar o norte e passou por Fafe. Obviamente, a terra do seu Professor...

Claro que os meus ouvidos ficaram melindrados com esta afirmação, mas percebi bem o que queria dizer. Guimarães tem monumentos imponentes que entram pela vista dentro. Em Fafe é preciso andar à procura da maior parte deles. E, mais ainda, Fafe precisa de todo o concelho para ser grande!

Jesus Martinho tem mostrado o potencial histórico! Gil Soares na defesa de mais investimento, quer para os fafenses, quer para atrair os turistas, que cada vez mais procuram o interior. Clara Castro aponta o que é preciso fazer. 

Tendo já todos percebido que a Comunicação não está a funcionar e que é preciso fazer um projeto turístico integrado, resta-me concluir, mais uma vez, que Fafe só vai conseguir uma verdadeira projeção quando agarrar no símbolo da JUSTIÇA DE FAFE e o transformar na sua verdadeira imagem de marca!

Pedro Sousa

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Agora, o importante é que ninguém fique contaminado, já que a comunicação desde a Câmara à oposição foi um desastre! E as pessoas aos molhos também não se portaram nada bem!

 Fiquei estupefacto! Ou, como diria a malta cá do burgo, estúpido dos olhos.

 Aviso já que não quero demissões ou investigações, como já ouvi por aí, até porque errar é humano, mas devemos saber reconhecer os erros. Sejam os nossos ou dos serviços da nossa responsabilidade!

 No meio desta confusão toda, não me interessa qualquer investigação de responsabilidades, porque todos foram irresponsáveis: A Câmara, que sabia e permitiu a realização do evento sem garantir as regras; Oposição, que devia ter tido uma ação mais interventiva e alertar as entidades competentes as vezes necessárias desde o início do evento (GNR, DGS…); GNR, porque não interveio e aplicou as mesmas regras como faz com os bares e discotecas; O PÚBLICO, porque ao ver tanta gente junta só tinha de dispersar. O cantor, enfim, se o chamam para cantar… o Homem só vem desempenhar o seu papel e quando o mandam parar, ouve-se no vídeo, ele para de imediato!

Há muito a aprender nas empresas e entidades quanto a uma ´boa COMUNICAÇÃO'!

Pedro Sousa 

(escreve às quartas, porque é dia de feira.)